Pequenas e médias empresas não têm crédito a menos de 45%
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sábado, 15 de maio de 1999
Por Denise Carvalho 
São Paulo, 16 (AE) - As taxas de juros cobradas pelos bancos sobre os empréstimos para as empresas estão variando entre 29% e 50% ao ano, mesmo depois de o Banco Central ter determinado a redução da Selic, taxa básica da economia, de 29 5% para 27% ao ano, no dia 12. Esta variação é a média das taxas máxima e mínima informadas pelos bancos, segundo apurado pelo AE-Taxas, serviço da AGÊNCIA ESTADO. Empresas médias e pequenas, entretanto, afirmam que não conseguem captar empréstimos a taxas abaixo de 45%.
É que os bancos, quando emprestam dinheiro, avaliam o tamanho da empresa tomadora, o faturamento, o relacionamento dela com o mercado, entre outros indicadores. Além disso as instituições agregam à taxa básica estipulada pelo Banco Central os impostos que compõem a cunha fiscal, custos administrativos e o spread de cada banco que, tudo somado eleva o preços das linhas de curto prazo para porcentuais mensais em torno de 5% a 6% ao mês.
A informação é do presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon) e diretor do Departamento de Economia da Associação Brasileira das Indústrias Elétrica e Eletrônica (Abinee), Antônio Corrêa de Lacerda.
O economista Fábio Pina, da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FCESP), também calcula em até 65% ao ano as taxas de juros cobradas pelos bancos em empréstimos para empresas. No comércio, Pina estima que os juros estejam variando entre 70% e 138% para o consumidor.
Apesar do cenário nacional turbulento e do mercado financeiro não acompanhar, no mesmo patamar, a redução da taxa do governo, as expectativas de bancos e empresas são otimistas.
A Meritor, empresa que fabrica rodas de aço para veículos, está tomando empréstimo a taxa de 3,38% ao mês (hot money over), o que significa 32,81% ao ano. Há 50 anos no mercado, a Meritor exporta 60% do que produz e seus clientes são grandes montadoras, tais como a Ford, Fiat e Volks.
No ano passado, segundo informou o gerente de tesouraria da empresa, Vivaldo Mascarin, a Meritor lucrou R$ 120 milhões e estima fechar 1999 com faturamento 16,7% superior, perto dos R$ 140 milhões.
Para empresa corporate, de primeira linha (com faturamento acima de R$ 100 milhões/ano), como define o sistema financeiro, os juros de empréstimo estão variando entre 29% e 40%. O economista Fábio Pina afirma, no entanto, que essas taxas são cobradas para empresas muito grandes, em que diretores, em alguns casos, são amigos dos gerentes de bancos.
As empresas classificadas como de segunda linha, que apresentam faturamento entre R$ 10 milhões e R$ 100 milhões por ano, não conseguem taxas abaixo de 45%, também no hot money over.
Uma empresa do interior de São Paulo, que trabalha com escapamentos, toma empréstimo de uma factoring mineira, para a qual paga uma taxa mensal antecipada de 3,8% ao mês, um juro que equivale a 43,9% ao ano, valor bem acima do praticado pelo BC.
O tesoureiro da empresa diz que ainda é melhor do que tomar empréstimos de bancos, que cobram juros de 4,5% ao mês, ou 69,6% ao ano. Ele argumenta, ainda, que empresas de factoring de grande porte costumam se arriscar mais do que bancos em caso de empréstimos e são menos burocráticas.
Giro - As taxas variam de acordo com o balanço das empresas, do relacionamento delas no mercado financeiro, da carteira de clientes que têm para apresentar como garantia para o pagamento de empréstimos, entre outras exigências.
O BicBanco, por exemplo, desde o início deste ano, decidiu dar preferência ao giro mais rápido das operações. "Assim, o banco tem garantias de recebíveis de liquidez imediata", diz o diretor de controladoria da instituição, Vicente Terêncio.
Segundo Terêncio, a pulverização da carteira de crédito aumenta a base de clientes, o que representa a diluição do risco de inadimplência. "Com a tendência de redução das taxas de juros, o risco de o banco não receber passa a ser menor"", afirmou Terêncio.
De acordo com o executivo, a inadimplência no BicBanco hoje é de aproximadamente 2% da carteira. Ele estima reduzir essa taxa para 1,7% ou até mesmo 1,5% até o final deste ano.
"Depois de as taxas de juros terem registrado subida cavalar, chegando a 45%, é natural que elas caiam a partir de agora", avaliou, por sua vez, Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).
Solimeo lembrou que os juros estavam em 19% em agosto de 1998, juros ainda altos, na sua opinião. Somados à taxa Selic, os custos dos bancos encarecem mais os empréstimos. "Os bancos acrescentam à taxa de juros de empréstimos todos os custos de captação dos recursos e os lucros que estimam obter.
E é claro que, com o risco de inadimplência ainda alto, os bancos tenham medo de perder dinheiro", avaliou Solimeo.
Círculo vicioso - O sistema torna-se um círculo vicioso, na opinião de Solimeo, quando o custo do dinheiro é muito alto. "As taxas nos bancos são altas na mesma proporção em que o governo aumenta o juro básico da economia", ponderou. "O risco de inadimplência, assim, fica num patamar também alto", acrescentou Solimeo.
As tabelas acima revelam a diferença entre a taxa Selic e a média dos juros cobrados pelos bancos para empréstimos de um dia (hot money) e de curto prazo - o capital de giro - para o empresário que cobre custos do dia-a-dia dos seus negócios. Os indicadores mostram a variação dos juros máximo e o mínimo cobrados nos dias de alteração da taxa Selic para as empresas de 1ª e 2ª linhas, segundo apuração do serviço AE-Taxas.
Expansão - O BicBanco está com planos para aumentar sua carteira de crédito em até 20% até o fechamento de 1999. No ano passado, o banco movimentou um volume de R$ 930 milhões e espera fechar a carteira deste ano com um resultado perto de R$ 1,3 bilhão, segundo estimativas de Vicente Terêncio.
Apesar das dificuldades verificadas no cenário nacional, o BicBanco, que atua principalmente com operações de crédito, espera apresentar um lucro de R$ 41 milhões em 1999, resultado equivalente a 18% do patrimônio líquido (de R$ 228 milhões) e 104% superior ao registrado no ano passado, de R$ 20,026 milhões.
No primeiro trimestre deste ano, o banco já lucrou R$ 14 613 milhões, contra R$ 2,086 milhões em igual período de 1998. O desempenho do banco se explica, segundo Terêncio, pelas medidas de ajuste administrativo, adotadas no ano passado e pela redução de custos, que deverá alcançar 10% ainda este ano.


