Penúria é característica do maior campo de refugiados
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sexta-feira, 25 de junho de 1999
Por Gabriela Athias, enviada especial 
Gaza, 26 (AE) - Em Jabalia, o maior campo de refugiados palestinos, o cheiro de animais mortos confunde-se com o das roupas penduradas nos varais. Pelas ruelas, com chão coberto de areia, correm crianças maltrapilhas, passam doentes mentais. Mulheres com vestimentas orientais escondem-se dos olhares curiosos dos poucos visitantes. Centenas de condutores de carroças (puxadas por burros) berram em megafones, pedindo passagem aos motoristas e transeuntes. Tudo isso sob um sol de 42 graus.
No mercado, o movimento é ainda mais intenso. Caixotes de roupas são expostos ao lado de gaiolas de coelhos e frangos. Noivas, com as mãos ainda pintadas de henna vermelha, não levantam os olhos nem para revirar as gôndolas à procura de ofertas. O esgoto dos casebres escorre para as ruas e vira lama sob as sandálias dos pedestres e patas dos animais. No coração de Jabalia, quem tem uma carroça é considerado rei: faz carreto, vira taxista e traz algum dinheiro para casa.
A penúria do maior campo de refugiados é anunciada desde a chegada na fronteira pela entrada reservada aos VIPs - todos os que não são operários. Motoristas de limusines alaranjadas - da década de 60 - disputam o transporte dos visitantes, que precisam percorrer a pé a distância de 300 metros que separa a guarita palestina da israelense. Pela "viagem", cobram US$ 2 5.
"Vá de táxi e ajude-os a sustentarem a família", pede o funcionário da imigração palestina. Enquanto uma Coca-Cola na cidade israelense mais próxima da fronteira custa US$ 1, em Jabalia pode ser comprada por US$ 0,37 centavos.
Os campos foram criados em 1948 pela Organização das Nações Unidas (ONU) para abrigar os palestinos que perderam a Guerra da Independência - quando não aceitaram a criação do Estado judeu e atacaram Israel. Desde então, os árabes vêm perdendo todas as guerras e os refugiados continuam no campo. Os poucos serviços públicos que existem nesses locais são mantidos pela ONU. Ou seja, a situação, que, a princípio, era para ser provisória, mantém-se inalterada. A diferença é que nesse período a população de refugiados triplicou.
As pessoas não deixam o campo por absoluta falta de oportunidade de trabalho, explicam os comerciantes locais. Por motivo de segurança, Israel só permite a passagem de operários casados, com idade superior a 28 anos.
De acordo com pesquisas, os "terroristas" costumam ser jovens (entre 17 e 25 anos), solteiros e ultra-religiosos. Além disso, hoje em Israel existem cerca de 150 mil operários romenos (que trabalham na construção civil) e tailandeses (empregados na agricultura), que passaram a ocupar os lugares antes preenchidos pelos palestinos.


