SALVADOR - Como acontece todos os anos, na sexta-feira da Paixão, milhares de penitentes realizam hoje, na cidade baiana de Juazeiro, no norte da Bahia, o ritual de autoflagelação, a mais famosa manifestação religiosa da quaresma no Nordeste.
Vestidos de branco, com o rosto coberto por capuzes, com apenas dois buracos para os olhos, os penitentes começaram os preparativos na quarta-feira de cinzas. Liderados pelos penitentes mais velhos e experientes, chamados disciplinadores, os fiéis passaram todo o dia de ontem amolando pequenas lâminas chamadas ‘‘disciplinas’’. Hoje, como acontece há mais de dois séculos, desde o início da colonização do alto São Francisco, eles vão amarrar as ‘‘disciplinas’’ em pontas de barbantes de cerca de 50 centímetros de comprimento, com os quais atingem as próprias costas, como se fossem chicotes, numa forma de pedirem perdão a Deus pelos pecados.
‘‘Quanto mais feridas, mais certo é que Deus está ouvindo nossa oração para nos salvar e purificar a alma dos mortos’’, acredita o agricultor Manoel Santos, que tem as costas calejadas pelo ritual praticado desde a adolescência. Chacoalhando matracas - instrumentos sonoros típicos da região - para a anunciarem a suposta remissão dos pecados, os penitentes entoam cânticos e com as costas sangrando entram pontualmente à meia-noite no cemitério de Juazeiro, para orar em cada um dos túmulos. Em seguida, visitam capelas e casas de penitentes, repetindo as estações da Via Sacra e pedindo em voz alta perdão para os pecados.
Os grupos de penitentes se espalham pela zona rural de Juazeiro e já integram mais de dois mil fiéis, a maioria lavradores que transmitem o ritual de pai para filho. Durante a caminhada, não se deixam reconhecer e evitam conversar, especialmente os disciplinadores, que são mais rigorosos em seu ritual e praticam a autoflagelação isoladamente, em locais de difícil acesso para o público, que é proibido de socorrer os feridos.

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