Pelo terceiro dia, Febem tem fuga e destruição
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domingo, 25 de julho de 1999
Por Gabriela Carelli e Rosa Bastos 
São Paulo, 26 (AE) - Os internos do Complexo Tatuapé da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem) voltaram a rebelar-se por volta das 21 horas de hoje, no terceiro dia de tumultos no local. Foi um dia tenso, com presença da Tropa de Choque da Polícia Militar, que, à noite, já havia deixado o complexo, mas voltou após a fuga de alguns menores, que destruíram a guarita da portaria central, e invadiu o local às 22h30. Um dos internos ficou ferido na perna direita e foi levado para o Pronto-Socorro Municipal do Tatuapé. No domingo, depois de uma trégua de menos de quatro horas, 400 menores começaram, por volta das 22 horas, um novo motim, que prosseguiu até as 4 horas de hoje. Houve mais fugas e destruição.
Às 17h40 de hoje, houve novo princípio de confusão, durante o encaminhamento dos garotos a suas unidades. A Tropa de Choque iniciou uma revista em mil menores. Foram encontrados alguns bisturis, que eles haviam pego da enfermaria.
O clima era calmo às 18h50, quando a tropa partiu. "Estamos indo embora, pois a direçao da Febem nos garantiu que a situação nas unidades está sob controle", disse o major Antônio Carlos, que comandou a ação no complexo.
O resultado dos três dias de tensão é desanimador: cerca de 200 foragidos, 6 unidades parcialmente destruídas, 8 veículos queimados, a enfermaria revirada, 1 dormitório onde ficavam 120 infratores e 1 armazém incendiados. Segundo informações oficiais
80 fugitivos foram capturados. Números do Sindicato de Funcionários da Febem apontavam 450 fugas.
O presidente da Febem, Eduardo Domingues da Silva, garantiu, apesar da destruição e do forte clima de tensão no local, que não haverá transferências para outros complexos e a situação estava sob controle.
Em dois dias, disse ele, serão restaurados os dormitórios e o problema de alojamento estará resolvido. Silva não soube precisar o montante do prejuízo. No local, há 17 unidades, onde estavam 1,5 mil menores. Houve discordância entre as informações quanto à destruição ou não os instrumentos musicais do Projeto Guri.
Os pátios do complexo, tomados pelos adolescentes no fim de semana, amanheceram vazios hoje. Mas na porta da frente a movimentação era grande. Os funcionários dos departamentos burocráticos e professores dos cursos profissionalizantes, dispensados, saíam em filas, enquanto parentes aguardavam notícias. Ainda havia fumaça, por causa do incêndio no armazém.
As primeiras informações oficiais foram passadas só às 11 horas, após a chegada da Pastoral do Menor, que faria longa vistoria para avaliar os danos físicos e morais sofridos pelos adolescentes.
Waldemir Pereira dos Santos, de 18 anos, que ficara preso 1 ano e 3 meses no local, havia deixado o complexo na semana passada, mas estava de fora, ansioso por notícias do irmão. "Sei como são os maus-tratos lá dentro; quando está calmo, eles estão apanhando muito." Luzimira de Andrade e Pires, mãe de R., de 16 anos, gritava e pedia ao filho calma. "Sua mãe está aqui, meu menino, vai ficar tudo bem."
O primeiro motim, que teve a participação de 400 menores, começou no sábado, após um jogo de futebol. A Tropa de Choque interveio e, aparentemente, a confusão havia terminado. Mas no domingo, por volta das 22 horas, outro susto. Eles iniciaram novo motim e houve mais fugas. A situação só foi controlada às 4 horas.
O major Antonio Carlos, da Tropa de Choque, garantiu que nenhum menor ficou ferido. "Realmente não vi nenhum policial bater nos internos", confirmou o padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Menor. O padre, no entanto, informou que a direção do órgão tinha dificuldades para completar o quadro de seguranças do período noturno, ja que muitos funcionários não foram trabalhar.
"A direção da Febem perdeu o controle da situação", disse o presidente do Sindicato dos Funcionários da Febem, Antonio Gilberto da Silva. Apesar da tensão do vandalismo, o presidente da instituição disse que não foi uma "grande rebelião". " (Colaborou Mauro Carvalho da Silva)


