Pela terceira noite, Febem tem fuga e destruição
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segunda-feira, 26 de julho de 1999
Por Gabriela Carelli e Rosa Bastos 
São Paulo, 27 (AE) - Os internos do Complexo Tatuapé da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem) voltaram a rebelar-se por volta das 21 horas de ontem, no terceiro dia de tumultos no local.
Foi um dia tenso, com presença da Tropa de Choque da Polícia Militar, que, à noite, já havia deixado o complexo, mas voltou e cerca de 300 policiais invadiram o local às 22h30, após a fuga de 100 menores, que destruíram a guarita da portaria central. J. R. S., um dos internos, ficou ferido na perna direita e foi levado para o Pronto-Socorro Municipal do Tatuapé. Outro menor, não identificado, feriu-se com estilhaços de bombas de gás lacrimogêneo.
O secretário estadual da Segurança Pública, Marco Vinício Petrelluzzi, chegou às 23 horas e ordenou ao comandante-geral da Polícia Militar, Rui Cesar Melo, que a princípio a tropa apenas ficasse de prontidão no pátio interno, evitando o confronto com os menores. Assim que os policiais entraram, os internos recuaram para as unidades, mas continuavam provocando os policiais, até jogando pedras e outros objetos.
Petrelluzzi disse que a situação estaria sendo avaliada a cada minuto durante a madrugada e admitiu que ainda não estava sob controle, o que poderia até motivar um confronto dos internos com os policiais. "Estamos prontos para agir a qualquer momento."
No domingo, depois de uma trégua de menos de quatro horas, 400 menores começaram, por volta das 22 horas, um novo motim, que prosseguiu até as 4 horas de ontem. Houve mais fugas e destruição.
Às 17h40 de ontem, houve novo princípio de confusão, durante o encaminhamento dos garotos a suas unidades. A Tropa de Choque iniciou uma revista em mil menores. Foram encontrados alguns bisturis, que eles haviam pego da enfermaria.
O resultado dos três dias de tensão é desanimador: cerca de 300 foragidos, 6 unidades parcialmente destruídas, 8 veículos queimados, a enfermaria revirada, 1 dormitório onde ficavam 120 infratores e 1 armazém incendiados. Segundo informações oficiais
80 fugitivos foram capturados. Números do Sindicato de Funcionários da Febem apontavam 450 fugas.
O presidente da Febem, Eduardo Domingues da Silva, garantiu, apesar da destruição e do forte clima de tensão no local, que não haverá transferências para outros complexos e a situação estava sob controle. Em dois dias, disse ele, serão restaurados os dormitórios e o problema de alojamento estará resolvido. No local, há 17 unidades, onde estavam 1,5 mil menores. Houve discordância entre as informações quanto à destruição ou não os instrumentos musicais do Projeto Guri.
Os pátios do complexo, tomados pelos adolescentes no fim de semana, amanheceram vazios ontem. Mas na porta da frente a movimentação era grande. Os funcionários saíam em filas, enquanto parentes aguardavam notícias.
As primeiras informações oficiais foram passadas só às 11 horas, após a chegada da Pastoral do Menor, que faria longa vistoria para avaliar os danos físicos e morais sofridos pelos adolescentes.
Waldemir Pereira dos Santos, de 18 anos, que ficara preso 1 ano e 3 meses no local, havia deixado o complexo na semana passada, mas estava de fora, ansioso por notícias do irmão. "Sei como são os maus-tratos lá dentro; quando está calmo, eles estão apanhando muito." Luzimira de Andrade e Pires, mãe de R., de 16 anos, gritava e pedia ao filho calma. "Sua mãe está aqui, meu menino, vai ficar tudo bem."
Fugas - O primeiro motim, que teve a participação de 400 menores, começou no sábado, após um jogo de futebol. A Tropa de Choque interveio e, aparentemente, a confusão havia terminado. Mas no domingo, por volta das 22 horas, outro susto. Eles iniciaram novo motim e houve mais fugas. A situação só foi controlada às 4 horas.
"A direção da Febem perdeu o controle da situação", disse o presidente do Sindicato dos Funcionários da Febem, Antonio Gilberto da Silva. Apesar da tensão do vandalismo, o presidente da instituição disse que não foi uma "grande rebelião". " (Colaborou Mauro Carvalho da Silva)


