Buenos Aires, 27 (AE) - "Soy el tigre que sigue luchando" (sou o tigre que continua lutando). Com esta autodefinição, o presidente Carlos Menem resumiu sua intenção de continuar no comando de seu partido, mesmo não podendo ser candidato à presidência do país nas eleições de outubro deste ano.
Em uma cerimônia nesta segunda-feira à noite, o presidente Carlos Menem autoempossou-se por mais um mandato como o presidente do Partido Justicialista (mais conhecido como "peronista") até dezembro de 2002. A posse foi polêmica, e nos dias anteriores abundaram as impugnações e contra-impuganções, envolvendo até a própria Corte Suprema.
Um peronismo bicéfalo é a novidade que saiu desta cerimônia, onde o presidente rodeou-se com os restos do partido que ainda o apóiam.
Enquanto Menem retém a chefia do partido, o poder de fato parece ficar com o governador da província de Buenos Aires, Eduardo Duhalde, e pré-candidato do partido peronista às eleições presidenciais deste ano, que não compareceu à cerimônia de posse, nem seus aliados políticos.
Duhalde, principal inimigo de Menem dentro do partido, tentou impugnar a posse de Menem, mas sem resultado.
O imbróglio começou em julho do ano passado, quando um congresso partidário convocou eleições antecipadas das autoridades peronistas. Os duhaldistas tentaram impugnar o Congresso, do qual não participaram. As idas e vindas na Justiça deram a razão a Menem. Dentro dos 24 lugares no Conselho do Partido, os "duhaldistas" confinam-se a apenas um representante.
Revidando as tentativas de impedir sua posse, Menem não poupou críticas indiretas a Duhalde: "quando um peronista critica outro peronista é sinal de que está se aliando ao inimigo", disse. O presidente está encurralado: desde o começo do ano, com a inviabilidade da possibilidade de uma segunda reeleição para Menem, o poder começou a escoar rapidamente para Duhalde. O presidente não se conforma, e tenta manter alguma forma de continuar influindo na arena política.
Para Rosendo Fraga, o principal think tank do país, "se Duhalde vencer a eleição presidencial, não será um inconveniente que Menem ocupe a chefia do partido. Mas, se Duhalde perder para a oposição, Menem poderia transformar-se em um líder de muito poder e conjeturar em ser o candidato presidencial para o 2003".
O presidente argentino está fazendo o possível para evitar transformar-se em um "lame duck", denominação norte-americana para os presidentes que no fim do governo começam a perder poder para seus sucessores. Os analistas consideram que Menem quer um peronismo sob sua batuta, embora resigne-se a ter Duhalde como o candidato à presidência do país.
No comando do peronismo, Menem quer dirigir a campanha do governador Duhalde: não só elaborar o discurso, mas também o programa de governo. Desta forma, Menem pretenderia ser o responsável por uma nova vitória do peronismo.
No entanto, o peronismo não está acostumado a ser comandado por duas pessoas ou mais: até hoje, os líderes peronistas, estando no poder, só o deixaram mortos ou derrubados por um golpe de Estado. Menem seria a primeira experiência de um peronista passando a liderança para outro de forma pacífica.
Enquanto o partido do governo passa por sua pior crise interna dos últimos 23 anos, na oposição reina o desconcerto pela queda nas pesquisas. Essa preocupação está fazendo que o nome do ex-ministro Domingo Cavallo torne-se cada vez mais especulado para uma aliança estratégica no caso de um segundo turno.
Cavallo é candidato à presidência pelo partido que fundou, o "Acción por la República", e afirma que embora no primeiro turno dispute sozinho o comando do país, não descarta em fazer um acordo na segunda etapa. Além da oposição, Cavallo também está sendo paquerado por Duhalde.
Na coalizão de oposição, a Aliança União Cívica Radical (UCR)- Frepaso, o nome de Cavallo também soa como um canto de sereia. Mas o barco da Aliança possui um Ulisses que se recusa a ceder aos sedutores votos que Cavallo: o ex-presidente Raúl Alfonsín. Ele ameaçou abandonar a Aliança se houver um acordo com o ex-ministro. Embora sem nenhum cargo formal dentro da coalizão, Alfonsín é o líder "espiritual" da UCR, e sua saída abalaria os alicerces do centenário partido.
A especulada aliança com Cavallo é um dos sinais de que a Aliança perdeu o empuxo inicial, que lhe permitiu que em outubro de 1997, três meses depois de ser formada, infligisse a primeira derrota do peronismo em uma década. Depois, manteve-se no alto das pesquisas sobre a intenção de voto, superando o peronismo por mais de 15%, ou seja, 3,8 milhões de eleitores.
"O peronismo não fez nada direito, e a Aliança não cometeu nenhum erro crasso. Mas tudo indica que Duhalde seria o próximo presidente", admite supreso o analista político James Neilson.
Uma pesquisa do Instituto Mora y Araujo indica que o peronismo já ultrapassou a Aliança. Segundo a pesquisa, a intenção de voto por partido dá 35% ao peronismo e 29% à Aliança. Os indecisos seriam 27%.
Na intenção de voto pelas chapas, a dupla Duhalde-Ortega conseguiria 38%, enquanto que De La Rúa-álvarez ficaria com 34%.

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