Pela 1ª vez em série histórica, Brasil fica estagnado no IDH
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de março de 2017
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 

Há dois anos sem ter a carteira de trabalho assinada, Joel dos Santos, de 36 anos, encontrou na reciclagem uma forma de sustentar a mulher, Vanessa Santos, de 29, e as três filhas, com idades entre 3 e 10 anos. Todos os dias, o morador do Jardim Santa Fé, na zona leste de Londrina, percorre os bairros vizinhos com seu carrinho que comprou com o dinheiro do acerto do último emprego. As enormes pilhas de materiais que ele acumula no quintal de casa não rendem mais que R$ 300 por mês. A família se mantém graças ao auxílio do Bolsa Família.
Santos sente na pele o drama da queda de vários indicadores que fizeram, pela primeira vez na série histórica, o Brasil estagnar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo relatório das Nações Unidas divulgado nesta terça-feira (21). O estudo revela que o País alcançou o indicador 0,754, de uma escala de 0 a 1, o mesmo obtido no ano anterior. Com esse desempenho, o Brasil se mantém na 79ª posição no ranking, empatado com a Ilha de Granada. A Noruega, primeira da lista, alcançou o IDH 0,949. A pior colocação foi da República Centro-Africana, com 0,352. Ao todo, participam do ranking 188 países e territórios.
A coordenadora do Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional, Andréa Bolzon, aponta que são poucos os países que ficam estagnados ou caem no desempenho do IDH. "A tendência é de todos avançarem de um ano para o outro. Neste ano, por exemplo, mais de uma centena de países apresentaram melhora nos indicadores", informou. A queda de IDH foi registrada sobretudo em países que enfrentaram condições adversas. Foi o caso, por exemplo, da Síria, onde ocorre uma guerra civil há seis anos. Para Andrea, o desempenho brasileiro é reflexo da crise econômica que o País já enfrentava em 2015, ano da coleta dos dados do relatório.
Antes de 2015, a vida era bem mais fácil na casa da família Santos. "Quando estava empregado, eu comprava umas coisinhas para as crianças. Hoje, está bem complicado", compara. Sem perspectivas de melhoras, ele torce para conseguir um emprego ou, ao menos, fazer parte de uma cooperativa de reciclagem. "Espero que essa crise esteja chegando ao fim, porque a situação é muito grave", reclama.
A pesquisadora observa, por exemplo, que entre 2014 e 2015, a pobreza no Brasil aumentou, rompendo um ciclo de queda identificado desde a década anterior. Dados indicam que, em 2015, 3,63% da população vivia em situação de extrema pobreza, com uma renda mensal per capita de até R$ 70. Naquele mesmo ano, 9,96% da população era classificada como vulnerável à pobreza, com rendimento de até R$ 140 por mês.
O desemprego, por sua vez, cresceu de forma expressiva neste mesmo período. Os mais afetados foram jovens. A taxa de desemprego entre 15 a 24 anos em 2015 era de 23,1%, bem acima dos 17% identificados em 2014. Em seguida, estavam as mulheres. O nível de desemprego entre mulheres cresceu de 8,9% para 11,8% no biênio 2014-2015, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).
Desde 2010, quando o IDH do Brasil foi de 0,724, o País apresentou evolução constante: 0,730, em 2011, 0,734 (2012), 0,747 (2013) e 0,754 (em 2014 e 2015).
CRISE ECONÔMICA
Para o sociólogo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Gustavo de Lacerda, a estagnação do IDH do Brasil é reflexo direto da crise econômica. "O País precisa superar a crise de qualquer maneira, pois isso não impacta só o setor econômico. Sem dinheiro, não há como investir em infraestrutura social, ampliar os gastos com educação, que é a chave para se mudar o todo este cenário", argumenta. Ele disse, no entanto, ver com ressalvas alguns dados do estudo. "É complicado comparar o Brasil, um país de dimensões continentais, com a Coreia do Sul, por exemplo", opina.
Desenvolvido há 26 anos, o IDH tem uma escala de 0 a 1. Quanto mais próxima de um, melhor a situação do país. As notas são dadas a partir da avaliação de três quesitos: saúde, educação e rendimento. Entre 1990 e 2015, a média de crescimento do IDH brasileiro foi de 0,85% ao ano.
A análise dos dados mostra que o que levou o País a quebrar essa trajetória foi o padrão de vida. A renda nacional per capita foi de 14.145 P.P.P. (paridade de poder de compra, uma medida internacional usada para permitir comparação entre diferentes moedas). Em 2014, a renda havia sido 14.858. O relatório mostra que, em 2015, a renda per capita na Turquia, por exemplo era de 18.705. Já o México era de 16.383 e o Chile, de 21.665.
Nos outros quesitos do IDH, o País apresentou uma discreta melhora. A expectativa de vida (usada para medir o desenvolvimento na área de saúde) foi de 74,7 anos. Mais do que os 74,5 indicados em 2014. Na área de conhecimento, o Brasil obteve um pequeno avanço na média de anos de estudo. Passou de 7,7 em 2014 para 7,8 em 2015. Por outro lado, chama a atenção da estagnação de outra variante usada para avaliar o conhecimento, a expectativa de anos de estudo. Desde 2013, esse indicador não ultrapassa a marca dos 15,2 anos.
O IDH brasileiro está um pouco acima da média regional da América Latina e Caribe, que foi de 0,751 em 2015. Na comparação entre Brics, apenas a Rússia traz um IDH superior ao do Brasil: 0,804. China, África do Sul e Índia aparecem no ranking em posições abaixo do País, com indicadores 0,738; 0,666 e 0,624, respectivamente.
O governo federal afirmou, por meio de nota, que os dados divulgados "ilustram a severidade da crise da qual apenas agora o país vai saindo".(Com Agência Brasil)


