Pedro Domingos Alves, migrante do sertão paraibano, foi um pedreiro que ajudou a construir importantes obras de Londrina. Entre elas, a UEL
Pedro Domingos Alves, migrante do sertão paraibano, foi um pedreiro que ajudou a construir importantes obras de Londrina. Entre elas, a UEL | Foto: Roberto Custódio



Pedro Domingos Alves, 84, migrante do sertão paraibano, foi um pedreiro que ajudou a construir edifícios importantes de Londrina. Diferentemente do "Pedro Pedreiro" da canção de Chico Buarque, ele não ficou esperando o trem, mas um caminhão de coco para vir a Londrina. Chegou à cidade em 1959 e aqui trabalhou como operário em diversas obras, entre elas as da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Edifício Glória, Edifício Adma Caram e a reforma da Santa Casa de Londrina. Depois de participar da construção de tantas obras que ficaram marcadas na paisagem londrinense, ele recebeu o Diploma de Reconhecimento Público durante sessão solene realizada na Câmara Municipal de Londrina, em novembro. A honraria foi concedida por meio do Requerimento 320/2018, de autoria do vereador Ailton Nantes (PP).

Alves morava em Campina Grande (PB) e já tinha trabalhado na construção civil com o seu tio antes de aparecer por estas paragens. A fama de Londrina de ser uma cidade em que corria o dinheiro do café já era bem grande no Nordeste. "Tinha uma turma que vinha para cá e resolvi vir com eles. Conhecia o dono do transporte. Ele trazia uma carga de coco de João Pessoa para cá", relatou. Depois de 14 dias de viagem, chegou a Londrina. "Eu tinha 26 anos. Quando cheguei fiquei com ele na pensão e no outro dia fomos descarregar o caminhão. Ensacava os cocos e entregávamos nas lojas", dizendo que depois encontrou um rapaz que tinha vindo no mesmo caminhão e lhe falou da possibilidade de trabalhar em uma obra. Naquele tempo, a maior parte das vagas disponíveis na cidade era para carregar sacas de café. "Como não tinha experiência como saqueiro, fui trabalhar na construção civil", explicou. As casas em demolição ficavam na rua Pernambuco, esquina com a rua Benjamin Constant, onde, hoje, fica o Lojão Oba Oba. "Depois da demolição, começamos a construção do prédio e fiquei até o fim, dois anos e seis meses na obra", destacou.

Ele relatou que o mais difícil foi arrumar um lugar para dormir, pois não conhecia ninguém por aqui. "Encontrei um motorista que arrumou uma vaga na pensão que oferecia comida. Eu ainda tinha um pouco de dinheiro que trouxe da Paraíba, que dava para pagar um mês", destacou.

Mal sabia ele que a pousada poderia lhe render um casamento. "Todo domingo eu ia à missa às 10h e tinha uma moça que sempre ia às 9h. Uma dia, essa moça (Olga Pereira Alves) ficou para a missa das 10 e acabamos conversando. Como ela disse que não tinha namorado, acabamos nos entendendo e casando. Acho que me escolheu porque eu sempre andava de terno", afirmou. Os dois se casaram em 1962 e tiveram cinco filhos, todos nascidos em Londrina; dois deles já falecidos. A mãe de Olga, Josefa Corrado, era quem administrava o pensionato.

MUITOS TIJOLOS
Sobre os edifícios Glória e Adma Caram, que ficam próximos da Concha Acústica e do Centro Comercial, ele relembra de ter assentado muitos tijolos. "O Adma Caram, inicialmente, não tinha sido projetado para ter apartamentos; era para ser um edifício estacionamento para veículos. Depois que foi convertido para ser moradia. Trabalhamos em dois pedreiros para levantar o prédio", destacou. Foi Alves também que ajudou a construir o prédio em que fica o supermercado Musamar, na rua Pernambuco, e outros dois prédios na rua João Cândido. "Ajudei na reforma da Santa Casa e a casa das irmãs, em 1964. Na revolução militar eu estava trabalhando lá. Me lembro que todo mundo começou a chorar, dizendo que ia ter guerra. Eu não sabia o que estava acontecendo", descreveu.

Além de prédios, o paraibano se dedicou a construir casas pequenas e a reformar alguns prédios na cidade. "Me lembro de colocar as esquadrias para os vitrais do apartamento do ex-governador Paulo Pimentel", recordou.

Ele conta que naquela época não havia muitos equipamentos de proteção individual. "Só tínhamos o capacete, não recebíamos máscaras. Os sapatos, por exemplo, eram comuns, iguais o que a gente usa no dia a dia", observou. Devido a essas condições de trabalho, que eram comuns na época, acabou desenvolvendo complicações respiratórias e foi obrigado a mudar de atividade. Adquiriu uma banca de jornais e revistas em 1978 que ficava na antiga rodoviária, onde hoje é o Museu de Artes de Londrina. "Eu ia comprar outro comércio, mas aconselharam que a banca de jornal seria mais fácil para mim. Comprei aquela que ficava dentro da rodoviária, que pertencia ao mesmo proprietário de uma banca que ficava em frente aos Correios", relembrou. Era a banca que ficava próxima da plataforma sete e da avenida São Paulo. "Ficava no fim dos arcos", localizou.

Para ele, o mais difícil era fazer a devolução dos produtos consignados. "Eu não sabia ler e escrever, mas tinha que procurar os produtos consignados que estavam vencendo. Havia aqueles que eu tinha de fazer a devolução por semana, outros eram por quinzena, e também aqueles de devolução mensal. O jornal era mais fácil porque era diário e pagava na hora", apontou.

Em 1988, com a transferência da rodoviária para outro endereço, entrou em acordo com a prefeitura e mudou sua banca para a Praça Rocha Pombo. Após 31 anos no ramo, em 2009, notificou a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) sobre sua saída definitiva da atividade. Hoje, Pedro Domingos Alves está aposentado.

Entre os fatos marcantes como jornaleiro, ele se recorda do dia que encontrou com João Milanez, fundador da Folha de Londrina, na sede do jornal. "Ele me perguntou se eu estava lá para buscar o exemplar e justificou o atraso da edição do dia porque um edifício havia desabado". O edifício era o Atlântico e havia caído em Guaratuba, em uma das grandes tragédias do litoral do Paraná, que matou 29 pessoas e feriu outras sete em 1995.

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