Pedro Paulo de Souza diz que governo negou ajuda à Encol
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quarta-feira, 23 de junho de 1999
Por Vânia Cristino, Arnaldo Galvão e José Ramos 
Brasília, 24 (AE) - O ex-presidente da Encol, Pedro Paulo de Souza, afirmou hoje, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Sistema Financeiro no Senado, que o governo se negou a ajudá-lo a superar uma crise passageira
de fluxo de caixa, levando a Encol à falência.
Souza centralizou as queixas e acusações aos bancos oficiais, em especial ao do Brasil (BB) que, na opinião dele, teve uma conduta pouco ética. Souza está preso e é acusado, na Justiça, de gestão fraudulenta e temerária da Encol, que foi a maior empresa de construção civil do País. "Não devia ter acreditado no Banco do Brasil; eles sempre arranjavam uma desculpa para não fazer o que prometiam." Segundo Souza, a principal causa da falência da Encol foi a taxa de juros que a empresa foi obrigada a pagar aos bancos para trabalhar.
Ele contou aos senadores que, sem linhas de longo prazo compatíveis com o financiamento habitacional, a empresa teve de recorrer a empréstimos de curto prazo, pagando juros superiores a 100% ao ano.
Souza negou que a Encol tenha dado um prejuízo superior a R$ 200 milhões ao BB. Segundo ele, mesmo corrigida, a dívida da empresa junto ao BB é de cerca de R$ 103 milhões.
"O Banco do Brasil habilitou, junto à massa falida da Encol, R$ 335 milhões, enquanto que a Caixa Econômica Federal quer receber mais de R$ 534 milhões para uma dívida de R$ 16,9 milhões, contraída em julho de 1995", disse o ex-presidente da Encol, tentando provar aos senadores o efeito perverso das taxas de juros. No depoimento, ele afirmou que logo que sentiu que a Encol não teria condições de suportar, sem novos financiamentos, a situação financeira vivida, procurou o presidente Fernando Henrique Cardoso, falando com o então secretário-geral, Eduardo Jorge Caldas Pereira.
Respondendo a uma pergunta do senador Roberto Saturnino (PSB-RJ), Souza disse que "ouviu falar que Eduardo Jorge seria cunhado ou concunhado de Jorge Washington Queiroz". Queiroz, segundo o dono da Encol, foi o nome imposto pelo então presidente do BB, Paulo César Ximenes, para assumir a presidência da empresa.
Outra indicação do parentesco entre Pereira e Queiroz seria o fato de um advogado chamado Marcos Jorge Caldas Pereira ter ajujizado uma ação trabalhista contra a Encol. O autor dessa ação, que pedia créditos de R$ 2 milhões era Queiroz.
"Eduardo Jorge disse-me para procurar o presidente da Caixa Econômica Federal que, na época, era o José Fernando", contou. Segundo ele, o contato foi feito, mas a Encol nada obteve. De acordo com Souza, em maio de 1995, ele foi procurado, pela primeira vez, pelo BB, que propôs promover uma mudança no perfil da dívida da empresa, que era de curto prazo, para longo. A esse contato, segundo Souza, seguiu-se vários outros, todos frustrados, porque, embora a Encol estivesse disposta a fazer qualquer coisa para entregar as obras e garantir o emprego dos funcionários, o BB não cumpriu nada do prometido.
Souza afirmou aos senadores que voltou a procurar Eduardo Jorge Caldas Pereira. Foi aconselhado a colocar uma empresa dentro da Encol para cuidar da dívida. Segundo ele, isso foi feito com a contratação do Banco Pactual, depois, retirado do negócio pelo BB. O BB teria afirmado que o objetivo da instituição era abrir o capital da Encol, vendendo ações da empresa no mundo inteiro.
Souza repetiu várias vezes que os principais contatos da Encol com o BB foram feitos com o ex-diretor de Crédito Édson Soares Ferreira e o atual diretor de Finanças, Carlos Gilberto Caetano. Os dois depõem amanhã (25) à CPI.
"É inexplicável o fato de o Banco do Brasil não ter permitido que o Itaú financiasse cerca de R$ 200 milhões para a Encol, e o pior é que eles também negar esse crédito", lamentou Souza. O dono da Encol disse que a situação dele hoje é de "falta de recursos".
"Minha família passa dificuldades, minha mulher já está trabalhando e economizamos água e luz." "O Pactual atendia-nos perfeitamente e eu argumentei ao Caetano que a Encol precisava de dinheiro no curto prazo", disse Souza. Na opinião do ex-presidente da empresa, o BB não apenas não ajudou como também impediu todas as tentativas que ele fez para sair da crise. Ele garantiu aos senadores ter sido por ingerência do BB que ele concordou em abrir mão da presidência da empresa, sendo também a instituição que coordenou o grupo de bancos e escolher Queiroz para dirigir a empresa.
"O Édson Ferreira disse-me para pedir a autofalência da Encol, o que eu não concordei porque prejudicaria os clientes e os funcionários", garantiu o ex-presidente. Souza listou para os senadores as operações de crédito contratadas com o BB. Segundo ele, em 1994, a Encol tinha 11 operações de crédito com o banco, no valor corrigido de R$ 56 milhões. Na época, segundo ele, nenhuma estava vencida. Em 1995, a Encol renovou dez operações, com o BB sempre recebendo mais no curto prazo, tendo garantias adicionais e ativos reais subvalorizados em favor do banco.
O relator da CPI, João Alberto Souza (PMDB-MA), declarou-se surpreso com o conteúdo do depoimento do empresário. Segundo o relator, os depoimentos dos ex-diretores do BB amanhã serão esclarecedores. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) disse ter expectativa em relação à sessão de amanhã e quer saber por que o BB puniu 20 funcionários por causa dos empréstimos à Encol e nada ocorreu com esses dois diretores.


