Campinas, SP, 23 (AE) - O pedreiro Ricardo Aparecido de Camargo, detido em janeiro por engano, foi libertado ontem à noite, por força de uma liminar concedida em habeas-corpus, após 27 dias preso na Penitenciária de Piracicaba, interior de São Paulo. A liminar determinando a soltura do pedreiro foi concedida pelo vice- presidente do Tribunal de Alçada Criminal do Estado (Tacrim), Assumpção Neves. Camargo estuda a possibilidade de processar o Estado por danos morais.
O trabalhador foi preso no dia 26 de janeiro, durante uma blitz de trânsito em Rio Claro, onde mora com a mulher e dois filhos pequenos. Os policiais confundiram o pedreiro com Ricardo Aparecido Camargo, acusado de roubar um videocassete de uma residência em Campinas, a 90 quilômetros da capital, em agosto de 1994, contra quem foi expedido um mandado de prisão. O criminoso mora em Campinas, mas continua foragido. Erro - Para a advogada da família do trabalhador, Maria Celia Melleiro, houve erro do Setor de Identidicação da Polícia Civil, que não percebeu a existência da preposição "de" no sobrenome do pedreiro. Como não há registro das impresssões digitais do verdadeiro acusado, o morador de Rio Claro passou a ser considerado "procurado" pela polícia. O Instituto de Criminalística, porém, comparou as assinaturas dos dois homens e constatou a diferença.
O promotor de Justiça Celso Rocha Cavalheiro considerou o erro "grosseio" e pediu a imediata soltura do pedreiro. O pedido, no entanto, foi negado pelo juiz da 3ª Vara Criminal de Campinas, Nelson Fonseca Júnior. Na semana passada, a advogada do pedreiro recorreu ao Tacrim, que concedeu liminar no pedido de habeas corpus. Pesadelo - Muito abatido e cinco quilos mais magro, o pedreiro foi libertado por volta das 21 horas de ontem. Os pais, a mulher e os dois filhos foram recebê-lo na porta da cadeia. Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida por Camargo à Agência Estado: Agência Estado - Como foi passar 27 dias na cadeia por um crime que o senhor não cometeu? Ricardo Aparecido de Camargo - Foram os dias mais terríveis da minha vida. Não aguentava a ansiedade para provar minha inocência. Só conseguia dormir cerca de duas horas por noite. AE - E sua convivência com os outros presos? Camargo - Foi normal. Na cela em que eu estava havia outros seis presos. Eles sabiam do meu caso e me davam apoio. Diziam que eu acabaria solto mais cedo ou mais tarde. Não me trataram mal. AE -O senhor pretende processar o Estado? Camargo - Estou estudando essa possibilidade, mas ainda não decidi o que fazer. Por enquanto, quero retomar minha vida e tentar esquecer esse pesadelo.

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