Agência Estado
Do Rio
Há um ano, quando o pedreiro Evando dos Santos, de 39 anos, morador da Penha, na zona norte, montou uma biblioteca dentro de sua garagem, não imaginava que, um dia, serviria de modelo para outros entusiastas da leitura. Assim como ele, moradores de áreas carentes de bibliotecas públicas estão reunindo, por conta própria, milhares de títulos para proporcionar a crianças e jovens o acesso a livros de aventura, romance, ficção científica e didáticos.
Embora nunca tenha aprendido a escrever, Santos sabe ler. E lê muito – de clássicos da literatura brasileira à Bíblia. Sua predileção por Tobias Barreto o levou a dar o nome do escritor sergipano a seu acervo, de quase dez mil títulos. Entre eles, edições raras como um exemplar de 1925 de ‘‘Os Lusíadas’’, de Luís de Camões, e da primeira gramática portuguesa, de 1539, escrita por João de Barros. ‘‘Quero mostrar aos pequenos que ler é fundamental’’, diz o pedreiro.
Ao ver a história de Santos em uma reportagem da TV, o comerciante Sidney Lopes, de 43, resolveu fazer o mesmo. Ele tem 1.500 livros e já alugou uma loja na mesma região da sua, na Vila das Mangueiras, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, para abrigá-los. A partir de janeiro, os seis mil jovens em idade escolar que moram na área, onde há dez colégios e somente uma biblioteca pública, poderão dispor do acervo, conseguido através de doações.
O casal Alcicléia e Marcelo Sanuto também foi orientado pelo pedreiro Santos e ocupou a área de serviço de sua casa, em Duque de Caxias, na Baixada, com 4.700 títulos. Os 50 metros quadrados do cômodo são pequenos para as doações de moradores e lojistas da região. ‘‘Como líamos muito, reunimos primeiro todos os livros que tínhamos na casa’’, explica Alcicléia. ‘‘Isso deu uns 350; aí começamos a pedir aos outros.’’ Os frequentadores costumam ir à biblioteca, batizada com o nome do educador pernambucano Paulo Freire, a qualquer hora do dia. ‘‘Estamos de portas abertas quando os acervos convencionais estão inacessíveis, como à noite, e também em domingos e feriados’’, conta Sanuto.
Na Ilha do Governador, na zona norte, o Rotary Clube está realizando uma campanha para angariar livros para a criação de uma biblioteca dentro do Hospital Nossa Senhora do Loreto, que fica no bairro. O objetivo é entreter crianças que estejam internadas. Diversão é o que não deve faltar: há um mês em vigor, a campanha já conseguiu doação suficiente para todos os pacientes. ‘‘O poder da leitura é imenso’’, filosofa o pedreiro Santos. ‘‘E a solidariedade das pessoas também.’’

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