Pedido ao povo judeu envolve razões religiosas, passionais e históricas Do correspondente Gilles Lapouge11/Mar, 18:44 Paris, 11 (AE) - Entre os sete pedidos de perdão que João Paulo II deverá fazer amanhã, em Roma, há um essencial e perigoso, se levarmos em conta o conteúdo carregado que ele encerra por razões religiosas, passionais e históricas: o pedido de perdão ao povo da Primeira Aliança, Israel. Aliás, podemos dizer que o papa vai expressar três arrependimentos em relação aos judeus, pois eles se encontram também em outros arrependimentos: as violências durante as Cruzadas e a Inquisição. Um exemplo ilustra o quanto esse passo de João Paulo II é corajoso: a França tem uma espécie de santo que consagrou toda a sua vida aos pobres, conhecido como abade Pierre. Nada existe de mais elevado na ordem humana. Ora, há alguns meses, o idoso abade pronunciou palavras extremamente depreciativas contra os judeus e Israel. Por quê? Porque no âmago da cultura católica existe um quisto, um bloco de pus formado no decurso de 2 mil anos de ódio contra os judeus. Sem dúvida, hoje esse ódio é cada vez mais raro. E, mesmo quando existe, a vergonha do Holocausto o inibe de se expressar. Mas, nem por isso - e o abade nos veio lembrar disso - cessou de infeccionar o inconsciente de muitos católicos, bons e gentis. Um rápido olhar mostrará a antiguidade desse quisto. A princípio, Jesus é judeu e o judaísmo-cristianismo constitui a primeira Igreja. A ruptura data de 140 d.C. e de São Paulo. A partir de então, os judeus-cristãos tornam-se hereges (sob o rótulo de ebionitas e judaizantes). Leitmotiv - Por que São Paulo? Porque ele estava convencido de que o cristianismo não realizaria sua universalidade se não se desligasse de sua matriz judaica. Esse tema será reforçado por um leitmotiv que ainda perdura: o povo judaico é o povo deicida. E "tem de pagar" por isso. E paga. As primeiras Cruzadas massacram populações judaicas inteiras. Como a meta da caminhada são os lugares santos, é uma boa ocasião para "fazer a limpeza", para matar os assassinos de Deus. Degolados em Mogúncia e Praga, os judeus são queimados em Jerusalém. Sua condição, já vilipendiada há séculos, rebaixa-se ainda mais. Os concílios os confinam em bairros separados, os guetos. São tolerados apenas na proporção de sua "utilidade" (a usura, que é deixada a eles, e a medicina, na qual são excelentes). O calvário judaico no Ocidente cristão é longo demais para que se possa ajoelhar diante de cada estação... Mas esta é terrível: na França, o rei Luís XI (São Luís), admirável e dotado de uma doçura angelical, obriga os judeus a levar a rouelle (rodela, ancestral da estrela amarela nazista), inicia um processo iníquo contra o Talmud e faz arder 24 carradas de manuscritos hebraicos. Cinquenta anos depois, os judeus são expulsos da França e da Inglaterra. Curiosamente, em seus Estados pontifícios, os papas protegem os judeus. Na Espanha, eles se mantêm por muito mais tempo porque são 1 milhão. Depois vem o ano de 1492 e os reis catolicíssimos expurgam a Espanha desse veneno. Na Espanha e em Portugal, a Inquisição faz deles feiticeiros e hereges. Para ser judeu, basta ter uma única prática judaica: observar o jejum judaico. Basta vestir uma roupa apropriada no sábado e o judeu terá "direito" à prisão, às galeras ou à fogueira. Embate - E, em toda a Europa, além das ações oficiais, existe o ódio popular: os judeus "envenenam as fontes", "amassam pão ázimo com sangue de cristãos recém-nascidos"... Poderíamos dizer que isso era coisa daquelas épocas obscuras, mas, com a modernidade, as coisas mudaram, sobretudo depois que a Revolução Francesa reintroduziu os judeus nas sociedades. Isso é verdade, mas apenas em parte. Mesmo num país humanista como a França, o anti-semitismo perdura: no fim do século 19, um oficial judeu, o capitão Dreyfus, foi acusado de ter espionado em favor da Alemanha. Era uma falsidade. A França dividiu-se em duas: os dreyfusards (partidários de Dreyfus) e os antidreyfusards. Ora, salvo algumas exceções, em que meios se recrutavam os antidreyfusards? Na burguesia católica, que se tornou "histérica". Amizade - A ascensão do nazismo irá despertar algumas consciências católicas. O livro do teórico nazista Alfred Rosenberg (O Mito do Século 20) provoca um sobressalto no papado. Pio XI lança sua famosa frase: "Espiritualmente somos todos semitas." E, depois da guerra e da revelação do genocídio, o Concílio Vaticano II preconiza a amizade judaico-cristã. É publicada uma Declaração sobre os Judeus. É um grande passo, mas tardio: muitos católicos acham que o Vaticano II não fez uma confissão pública suficiente, limitando-se a condenar o comportamento atroz dos nazistas contra o qual - afirma-se - o papa Pio XII não se levantou com bastante energia durante a guerra. João Paulo II é mais claro e decidido, mas não conseguiu ultrapassar todos os obstáculos e perpetra alguns gestos que, longe de aliviar a ferida que aflige os judeus, ao contrário, as agravam (as religiosas de Auschwitz, a homilia a propósito de uma vítima de Hitler, uma judia convertida ao catolicismo, etc.). Amanhã, no entardecer de sua missão e quando multiplica os arrependimentos, João Paulo II deveria ir mais à frente. Aguardemos o texto do pedido de perdão!

mockup