São Paulo, 15 (AE) - Os pecuaristas das áreas que foram fechadas ao livre trânsito de bois para o Circuito Pecuário Centro-Oeste estão registrando prejuízos diante da impossibilidade de vender seus bois para os grandes centros consumidores, como o Estado de São Paulo. Estes produtores, das zonas conhecidas como "tampão" de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás apenas podem vender seus bois internamente e a um preço menor que normalmente seria comercializado.
Eles também não estão encontrando kits de sorologia de aftosa junto aos órgãos de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, o que tem impedido que consigam vender o seu gado para outras regiões exteriores às zonas tampão. As zonas tampão são áreas delimitadas que separam uma região que é considerada livre de aftosa e outra onde a possibilidade de ocorrência da doença ainda existe. De acordo com o Ministério da Agricultura, gado criado nas zonas tampão não pode ir para áreas livres sem a realização de exames sorológicos. Porém, não há kits suficientes para a realização dos exames. Dentro das zonas tampão, o excesso de oferta de animais está provocando a queda dos preços da arroba.
Aguinaldo de Almeida Prado, pecuarista do Mato Grosso, vem sofrendo com o "fechamento" das fronteiras entre zonas tampão e zonas livres desde agosto de 1999. "Crio gado nelore precoce em minha propriedade em Comodoro, no Mato Grosso, e os engordo em outra fazenda, em Andradina, em São Paulo", disse. A cidade de Comodoro situa-se na divisa de Mato Grosso com Rondônia, onde existe uma zona tampão, para controlar o fluxo de bois entre uma área de risco (Rondônia) e outra em vias de ser declarada área livre de aftosa (Mato Grosso).
Ele conta que costumava trazer os bezerros de MT para engordar em SP mas, a partir de agosto de 1999, quando as fronteiras foram "fechadas" entre zonas tampão e zonas em vias de serem livres de aftosa para a realização de sorologia do Escritório Internacional de Epizootias (OIE), este trânsito foi proibido pelo governo.
Prado disse que, na ocasião, foi até o Ministério da Agricultura, onde lhe foi prometido que esta "proibição" vigoraria até dezembro de 1999. "Acreditei e me preparei para voltar a trazer meus animais em janeiro e qual foi a minha surpresa quando o governo anunciou que as fronteiras continuariam fechadas", disse. Segundo ele, o governo disse que as fronteiras ficarão fechadas até maio, mas ele acredita que a zona tampão do Mato Grosso só irá ser aberta em 2001. "Hoje vivo uma situação bizarra, com excesso de bois em minha propriedade em Mato Grosso e falta de animais em São Paulo", disse.
O pecuarista do MT explica que tem tentado levar os bois para São Paulo através da realização de testes de aftosa, mas não consegue encontrar os "kits". "Não existem kits suficientes no mercado para atender a demanda", disse. Prado disse que isto o obriga a vender seu gado apenas na zona tampão. "Enquanto o preço da arroba é de R$ 36 por arroba do Mato Grosso, sou obrigado a vender meu boi a um preço de R$ 34 dentro da zona tampão, contabilizando um prejuízo de R$ 2 por arroba", disse.
Prado disse que sente-se discriminado pelo governo. "Sei da importância da medida do governo, mas ele não deveria tratar os grandes produtores da mesma forma que os pequenos. Sempre vacinei o meu rebanho contra aftosa e há mais de 10 anos não existe um foco na região. Como prêmio, estou confinado em uma zona tampão", disse. Porém, mesmo assim, Prado não acredita que entrar na Justiça seja a melhor saída. "Uma ação judicial agora apenas iria atrapalhar todo o processo", disse.
O pecuarista Antenor Nogueira, de Goiás, é da mesma opinião. Nogueira possui fazendas de gado em Campos Belos, divisa com a Bahia, em uma região que não possui frigoríficos, e também está sendo prejudicado pela medida do governo de "fechamento" das zonas tampão. "O excesso de oferta dentro das zonas tampão provocou uma queda de preços considerável.
Tenho que vender meu gado entre R$ 31 a R$ 32 por arroba quando o preço real é de R$ 35", disse. Nogueira disse que não pretende entrar na Justiça. O presidente da Federação de Agricultura do Mato Grosso do Sul, José Armando Amado, disse hoje, que a medida de "fechamento" das fronteiras entre as zonas tampão e zonas livres apenas serão totalmente válidas quando o governo suprir o mercado com kits sorológicos o suficiente para atender a demanda. "Estes kits apenas são produzidos pelo Centro Panamericano de Febre Aftosa, no Rio de Janeiro, que não tem condições de atender a demanda", disse.
Segundo ele, a prática da análise de risco iria permitir que o fluxo de bois aumentasse sem colocar em risco a obtenção do certificado da OIE. "A atual situação está prejudicando o consumidor paulista, que está pagando mais pela carne, e também a indústria, já que a falta de bois deve levar ao desemprego à medida que está prejudicando frigoríficos", disse.
Segundo Amado, cerca de 450 mil animais saem do MS anualmente para serem abatidos em outros Estados, sendo que 80% vão para SP, 9% para o RS, 8% para o PR e o resante para outros Estados.

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