Brasília, 27 (AE) - Preocupadas em manter unidos os partidos da frente de esquerda, lideranças do PDT vêm atuando para que a falta de consenso em torno da defesa da renúncia do presidente Fernando Henrique Cardoso não se transforme em motivo de racha interno ou foco de divisão entre os partidos de oposição ao governo. A orientação é trabalhar para manter a frente coesa com vistas às eleições de 2002. "Não houve deliberação da convenção em torno da defesa da renúncia, mas entre nós esse não deve ser fator de estresse", disse hoje o líder do PDT na Câmara, deputado Miro Teixeira (RJ).
Na quinta-feira (26), durante a Marcha dos Cem Mil, o presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, recusou-se a acompanhar o grupo que entregou ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), o abaixo-assinado pedindo a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a privatização do sistema Telebrás. Uma reação pacífica à ausência do ex-governador do Rio foi articulada por um time de políticos pedetistas escalados para neutralizar eventuais críticas. A operação, deflagrada enquanto manifestantes se espalhavam diante do Congresso, mobilizou lideranças do partido: O deputado Vivaldo Barbosa (PDT-RJ) procurou o presidente nacional do PT, deputado José Dirceu (SP). O líder do PDT na Câmara conversou com seu colega e líder do PT, deputado José Genoíno (SP).
"Não tinha que ir; a causa da renúncia não passa pela presidência da Câmara, muito menos com ACM (presidente do Senado
Antonio Carlos Magalhães, PFL-BA)", justificou Brizola hoje. "Não passa pelo presidente da Câmara, como é mesmo o nome dele?", perguntou minutos depois. "Ah, o Michel Tamer", respondeu, com ironia.
"Cada um tem direito a formular suas propostas", amenizou Miro Teixeira, ele mesmo contrário à proposta de renúncia. "Não há uma preocupação de isolamento do partido porque temos (toda a oposição) pontos essenciais a defender", assegurou. "Todos (os partidos de oposição) saíram fortalecidos", avaliou Vivaldo Barbosa, um dos defensores da tese da renúncia do presidente Fernando Henrique.
A defesa da renúncia do presidente continua dividindo o PDT. A divergência entre as principais lideranças do partido foi mantida hoje, durante reunião da executiva nacional, que decidiu ampliar seu número de integrantes. O governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, provável candidato do PDT à sucessão de 2002, disse que renúncia era uma decisão pessoal do presidente Fernando Henrique Cardoso. "O presidente neste momento está sofrendo um apelo de consciência por parte do PDT; sou a favor do apelo, mas renúncia é um gesto unilateral", disse.
Presidente nacional do partido, Leonel Brizola voltou a defender a idéia. "Nós vamos continuar tomando assinaturas pedindo a renúncia", garantiu. "Estou empenhado é na renúncia; tudo o mais ele (Fernando Henrique) tem meios de escamotear." Brizola considera "intrigalha" falar em divisão das oposições pelo fato de o PDT ter defendido a renúncia.
"As oposições não são iguais: elas construíram a unidade na diversidade das correntes", disse. O presidente do PDT elogiou a participação do PT. "Foi o melhor discurso de Lula (presidente de honra, Luiz Inácio Lula da Silva)", disse.
"A marcha foi um grande acontecimento", avaliou Brizola, fazendo um balanço do protesto. "O País vai começar a mudar e vamos continuar colhendo assinaturas e começar a transmitir mensagens para o presidente por meio de email, fax e telegramas. Estaremos pedindo que ele (Fernando Henrique) tenha compreensão e proceda como outras grandes personalidades e reconheça, como professor, que foi reprovado."

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