Após cinco tentativas frustradas, a reconstituição do suposto confronto que deixou dois jovens mortos e um terceiro ferido em 2022, na Rodovia Celso Garcia Cid, foi feita nesta terça-feira (5), dentro do Parque Ney Braga Eventos. Desta vez, o sobrevivente dos mais de 50 disparos contra o veículo esteve presente e pôde dar sua versão de como ocorreram os fatos.

A reconstituição remonta a uma situação em que Aderbal Campos Bernardo Júnior, 21, Willian Jones Faramilio da Silva, 18, e um terceiro jovem, de 23 anos à época, foram interceptados dentro de um Cruze na PR-445 por uma viatura do Batalhão de Choque nos arredores da UEL (Universidade Estadual de Londrina).

Segundo a versão da PM (Polícia Militar), o veículo era fruto de roubo e os jovens teriam ameaçado os agentes apontando armas. Anderbal e Willian morreram no local, mas o terceiro jovem sobreviveu e foi socorrido. Na versão dele, os policiais chegaram atirando, plantaram as armas que foram apreendidas e retiraram as vítimas de dentro do veículo.

A reprodução simulada desta terça teve a presença de familiares e das vítimas e dos seis policiais acusados, dos quais quatro são lotados no Batalhão de Choque e dois no serviço de inteligência da Polícia Militar. Marcada para as 9h, a simulação atrasou porque a PM levou ao local um Cruze caracterizado em vez de um veículo civil, que foi aguardado até os familiares aceitarem a utilização do carro plotado e com giroflex.

As narrativas da ocorrência foram relatadas à Polícia Civil, advogados e peritos, um do IML (Instituto Médico Legal) e outros dois particulares, a serviço dos familiares, primeiro pelo sobrevivente e, em seguida, pelos policiais. Acusação e defesa não puderam acompanhar a reprodução simulada do lado adversário. A imprensa também não teve permissão de se aproximar do local, um dos barracões do interior do parque, e ficou do lado de fora do recinto.

Para o advogado Marcus Vinícius Marques, as famílias das vítimas "deram um grande passo na investigação sobre a execução de seus entes". "A reprodução simulada teve como objetivo esclarecer pontos que ainda geravam dúvidas acerca das versões apresentadas pelos policiais, as quais, em sua maioria, foram sanadas", disse, por meio de nota.

Representando os parentes de Willian e Anderbal, Marques diz que o próximo passo é aguardar a conclusão do laudo pericial para análise e, se necessário, requerer complementações. "Sem dúvida, foi um dia muito importante para o avanço da investigação."

Os advogados do sobrevivente, Mauro Martins, e dos policiais acusados, Eduardo Mileo, também foram procurados, mas, até o fechamento da matéria, não haviam dado retorno.

Esclarecimentos de controvérsias

A reconstituição do caso foi acompanhada com expectativa pelas famílias das vítimas, que veem no procedimento uma oportunidade de confrontar versões e esclarecer pontos ainda controversos da ocorrência. Mãe de Willian, Hayda Melo da Silva afirma que a principal esperança é que a dinâmica dos fatos seja, finalmente, elucidada. “A gente espera que a verdade seja esclarecida, que a versão do sobrevivente e a dos policiais sejam colocadas lado a lado e que a verdade venha à tona”, diz.

Haydee Melo (à esq.) ee Hayda Melo da Silva, tia e mãe de Willian Jones Faramilio da Silva, em frente ao Parque Ney Braga Eventos
Haydee Melo (à esq.) ee Hayda Melo da Silva, tia e mãe de Willian Jones Faramilio da Silva, em frente ao Parque Ney Braga Eventos | Foto: Luis Fernando Wiltemburg

Ela ressalta o impacto profundo das mortes nas famílias. Segundo Hayda, além da perda irreparável, há consequências emocionais que persistem ao longo dos anos. No caso de Anderbal, um filho pequeno ainda manifesta a ausência do pai. Já Willian, de 18 anos, era filho único. “Acabou com as nossas famílias, com a nossa descendência. Era um menino cheio de planos, e tudo se encerrou em segundos”, relata.

Ela considera a presença do jovem que sobreviveu central para o andamento das investigações. De acordo com a mãe, o relato dele se manteve consistente desde o início, ao contrário das versões apresentadas por policiais ao longo do tempo. “Ele descreve a posição da viatura, o momento dos disparos e o que aconteceu depois. E essa versão não mudou. Já os depoimentos dos policiais têm divergências”, afirma.

Tia de Willian, Haydee Melo destaca que a reconstituição pode ajudar a aprofundar aspectos técnicos que, segundo a família, ainda não foram totalmente esclarecidos. Ela tem a expectativa de obter resposta para parte dos quesitos levantados ao longo da investigação.

Ainda de acordo com a tia, a reconstrução da cena inclui simulações de posicionamento da viatura e do veículo, além de registros fotográficos para comparação com os relatos. A família acredita que, mesmo que nem todas as dúvidas sejam sanadas nesta etapa, o procedimento pode contribuir para o avanço do caso na Justiça.

Entre os pontos questionados está a dinâmica do suposto roubo do veículo. Segundo Haydee, há inconsistências entre horários e características descritas pela vítima do assalto e a rotina dos jovens naquele dia. “O sobrevivente estava saindo para o trabalho, há imagens que mostram isso. O Willian passou o dia trabalhando na lavanderia da família do Anderbal. E há divergências também na descrição dos suspeitos”, afirma.

A reprodução simulada da ocorrência foi suspensa três vezes durante o percurso do processo, até que foi marcada para abril de 2025, na PR-445. Entretanto, devido à coincidência da data com a ExpoLondrina. o comando da Polícia Militar em Londrina alegou efetivo insuficiente para garantir a segurança.

A reconstituição foi remarcada para maio do mesmo ano, mas adiada novamente para outubro, na sede do IML (Instituto Médico-Legal). Porém, desentendimento entre advogados, familiares das vítimas e autoridades levaram a um novo adiamento, com remarcação para 10 de março deste ano, no Autódromo Ayrton Senna, quando foi suspensa novamente devido à chuva.

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