Paris, 26 (AE) - No momento em que a eleição de Vladimir Putin para a presidência da Rússia punha em cheque o poder dos comunistas, no sul da França, em Martigues, o Partido Comunista Francês (outrora um dos mais poderosos e ortodoxos da Europa Ocidental), encerrava o seu 30º Congresso, anunciando mudanças para garantir sua sobrevivência.
Robert Hué foi reeleito para um terceiro mandato quase que por unanimidade - 97% dos congressistas - na direção nacional com base num projeto de renovação do partido. A curto prazo, o PCF vai manter sua participação no governo socialista de Lionel Jospin, solicitando uma guinada mais à esquerda.
Apesar da iminente reforma ministerial prevista para as próximas horas, os três ministros comunistas mostravam-se muito tranquilos, convencidos de que não serão atingidos pelos cortes.
Mesmo tendo iniciado há alguns anos um processo de abertura política, até agora a direção do PCF não conseguiu ainda conter o processo de declínio eleitoral, uma queda substancial - 21 % dos votos após a 2º Guerra para atualmente entre 8% e 9%. Como estancar essa erosão eleitoral convivendo com um Partido Socialista forte é um dos grandes problemas do PCF. Por isso, os comunistas franceses pretendem aparecer como a consciência de esquerda de seus parceiros socialistas, buscando evitar derrapagens centristas cada vez mais frequentes.
Seus 1.500 delegados reconduziram Hué apesar de certos protestos de uma minoria ortodoxa que não se adapta à nova linha de abertura do partido e às mudanças culturais. Quase todos os dirigentes responsáveis pela antiga ortodoxia comunista na França foram substituídos e os poucos que lá ainda se encontram já não têm o mesmo espaço. Esse é o caso, por exemplo, de Maxime Gremetz, antigo responsável pela relações internacionais do PCF. Amargo, ele afirma que esse foi seu último congresso, marginalizado por essa geração que se diz disposta a criar "um novo comunismo". Esses comunistas à antiga não pretendem abandonar o partido, mas sentem que estão sendo abandonados por ele.
No passado, o prestígio de um secretário-geral do PCF podia ser medido pelo nível da representação do PC da URSS no Congresso, na maior parte das vezes um alto membro do Politburo soviético. Leonid Brejnev, Andropov, Chernenko, Gorbachev foram alguns dos dirigentes que vieram à Paris cumprir essa tarefa. Esse ano, "o PCF nouveau" de Hué sequer convidou o PC russo para participar do encontro de Martigues.
As concessões têm sido numerosas desde que o PCF decidiu retirar a foice e o martelo de sua bandeira vermelha, não mais falar em ditadura do proletariado e substituir a função de secretário-geral (muita associada à antiga direção soviética) pela de secretário- nacional. O PCF só não admite ainda mudar de nome. Segundo Hué, isso corresponde ao desejo do partido de continuar comunista. Ele reconhece que durante muitos anos houve "uma sobrevalorização do papel de uma classe operária mistificada", mas essa concepção foi também abandonada.
Não é junto à classe operária que está ocorrendo um movimento de retorno ao PCF. Os intelectuais são os primeiros a voltar, depois que começou a se respirar um ar de liberdade no PCF.