Paz em Timor só será possível com substiuição no Exército
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terça-feira, 14 de setembro de 1999
Por Lourival SantAnna (assinatura obrigatória) 
São Paulo, 15 (AE) - Só vai ser possível pacificar Timor Leste se a maior parte dos oficiais e mesmo dos soldados indonésios no território for substituída. É o que afirma o cientista político brasileiro Antonio Jorge Rocha, que coordenou o trabalho das equipes de voluntários estrangeiros que assessoraram a ONU na realização do plebiscito.
Rocha, que ficou em Dili durante todo o mês de agosto e recolhia as informações das equipes espalhadas por todo o território, disse à Agência Estado que, na prática, não existe diferença entre o Exército e as milícias e que os militares têm negócios em Timor Leste e motivos pessoais para não querer a independência. "Se o Exército continuar alimentando as milícias com armas, dinheiro, tudo, serão muitos anos de luta."
De acordo com Rocha, professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e atualmente fazendo mestrado na Universidade Syracuse, no Estado de Nova York, ninguém em Dili tem dúvidas quanto à associação entre o Exército e os milicianos. "Muitos milicianos recebem treinamento dentro dos próprios quartéis."
A associação fica patente também na atitude dos militares diante das ações das milícias. Rocha presenciou o ataque dos milicianos ao escritório do Conselho Nacional de Resistência de Timor Leste (CNRT), dia 29, que deixou oito mortos. Depois da invasão ao escritório, os milicianos percorreram os restaurantes em torno, no centro de Dili, obrigando as pessoas a se deitarem no chão.
Nas ruas, atiravam para o alto. Alguns transeuntes se ajoelhavam no chão e rezavam, chorando. "Eles queriam mostrar que tinham controle sobre a cidade, que, se quisessem, podiam matar", explica Rocha, que se protegeu atrás de uma árvore, a 150 metros da cena. "Enquanto tudo isso acontecia, caminhões do Exército passavam, os militares só olhavam e não faziam nada." Para o professor, "esse Exército e essa polícia nada fariam para combater as milícias" e "se tivesse havido real intenção de cumprir o acordo, praticamente todos os que serviam em Timor Leste teriam sido trocados".
Rocha concorda com a análise de outro cientista político brasileiro que participou da organização do plebiscito, Luís Bitencourt, que disse à AE que o objetivo das milícias depois do plebiscito passou a ser a criação de uma área para os que são contrários à independência de Timor. O plano, que, segundo Rocha
tem sido apresentado pelos próprios militares, é anexar a Timor Oeste, sob domínio indonésio, uma faixa de terra na fronteira com o lado leste, da cidade de Liquisa até a de Suaisami.


