Paz com os árabes ou paz entre judeus?
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domingo, 04 de julho de 1999
Por JOSEPH CONTRERAS 
Nova York, 05 (AE-NEWSWEEK) - Primeiro a paz com os árabes; a paz entre os judeus precisa esperar. Depois da vitória eleitoral de Ehud Barak em maio, muitos israelenses previram que haveria uma verdadeira limpeza na casa. Não a tiveram. Quando o novo primeiro- ministro de Israel deu os retoques finais em seu governo de coalizão na semana passada, ficou evidente que pelo menos seis ministros do gabinete do primeiro-ministro derrotado Benjamin Bibi Netanyahu tinham um lugar à mesa de Barak.
E Yitzhak Mordechai, David Levy, Yitzhak Levy, Natan Sharansky, Eli Suissa e Eli Yishai não são os únicos pontos comuns aos dois governos. Cinco dos oito partidos que integraram a frágil coalizão de Netanyahu estarão representados no governo de Barak. O mais importante é o Shas, o partido ultra-ortodoxo marcado por escândalos, mas defensor dos 2 milhões de judeus sefarditas.
Alguns israelenses que votaram em Barak em maio recusam firmemente os rostos familiares, principalmente a inclusão do Shas no novo governo.
Tommy Lapid, líder do partido anti-religioso Shinui, resmunga abertamente: "É piada de mau gosto, e estamos muito decepcionados com Barak." O pior é que Barak demorou seis semanas para chegar à definição do gabinete ministerial.
Mas alcançou ao menos um objetivo importante. A aliança de sete partidos atrelados pelo Partido Trabalhista de Barak dará ao primeiro-ministro a maioria insuperável de 75 cadeiras na Knesset de 120 membros - e relega o Partido Likud, pós-Netanyahu, à bancada oposicionista. Uma boa notícia para o processo de paz: quaisquer novos acordos que Barak feche com os vizinhos árabes de Israel devem ser aprovados pela Knesset.
Mas é má notícia para os judeus secularistas, que esperavam que Barak tentasse coibir o crescente prestígio político da comunidade ultra-ortodoxa de Israel; o novo primeiro-ministro já assinou pactos de cooperação com todos os três partidos políticos que dizem representar a minoria de judeus tradicionalistas de Israel.
"Esta coalizão permitirá a Barak avançar no processo de paz", diz um ex-conselheiro. "Mas vai haver um status quo paralisante nas grandes questões seculares-religiosas." Paz com os árabes ou paz entre os judeus? Barak precisou escolher. De um jeito ou de outro, ele precisava de maioria ampla na Knesset, o que implicava escolher o Shas ou o Likud como seu principal parceiro no governo. O fracasso dos entendimentos com o líder linha-dura do Likud, Ariel Sharon, levou Barak ao Shas, que aumentou de 10 para 17 o número de suas cadeiras na Knesset, nas eleições parlamentares deste ano.
E, fechando um acordo com o Shas - depois de forçar a demissão de seu líder, Aryeh Deri, condenado por suborno e fraude em março -, Barak na prática adiou um confronto com a numerosa população ortodoxa. Em troca ele consegue o apoio tácito do terceiro maior partido político de Israel no front diplomático.
"Não temos maioria na Knesset para o processo de paz, e ele (Barak) dependia do Shas ou do Likud", destaca Yossi Beilin, membro do Parlamento e ex-ministro que lidera a ala pacifista do Partido Trabalhista. "Quer dizer que ele pensa a sério na paz." Não vai ser fácil administrar a coalizão.
Barak reuniu muitos inimigos declarados. Embora tivessem servido lado a lado no governo de Netanyahu durante três anos, políticos pertencentes ao Shas trocaram farpas virulentas com o líder do Yisrael Baliyah, Natan Sharansky, durante a recente campanha eleitoral, em torno das credenciais judaicas de alguns eleitores de Sharansky, imigrantes russos. Os pacifistas de esquerda do Partido Meretz - que querem o desmanche das colônias judaicas na Cisjordânia - precisarão cooperar com o Partido Religioso Nacional, pró- colônias.
Completando o gabinete, lá estarão dois anti-Netanyahu e anti- Likud: o ex-ministro da Defesa Yitzhak Mordechai está cotado para a pasta dos Transportes, e David Levy reassume o Ministério das Relações Exteriores. Barak também reservou para si o tão importante Ministério da Defesa.
Enquanto isso, os três partidos religiosos vão insistir em questões nacionais que lhes são caras. O Shas, o Partido Religioso Nacional e o Judaísmo da Torá Unido ocupam mais de um terço das 75 cadeiras da Knesset formalmente filiadas ao novo governo. Em sua campanha eleitoral, Barak prometeu reduzir drasticamente o número anual de estudantes "yeshiva" isentos de prestação do serviço militar.
Mas Barak abandonou discretamente essa promessa e preferiu uma solução de meio-termo que permite aos estudantes do colegial passar por adestramento limitado no Exército depois que chegarem aos 24 anos de idade. O Shas, agora liderado por seu antigo líder espiritual, rabino Ovadia Yosef, vai ficar com 4 das 18 pastas ministeriais - número generoso para um partido que controla menos de 15% das cadeiras no Parlamento israelense.
A era de Barak vai representar um rompimento de fato com os anos de Netanyahu?
Quem sabe? Num aspecto importante, Barak leva uma vantagem sobre seu antecessor imediato. Ao reunir a mais vasta coalizão governista em Israel desde os anos 80, ele evitou as maiorias ínfimas que paralisaram os governos de Netanyahu e de seus antecessores pacifistas, Shimon Peres e o falecido Yitzhak Rabin.
Não esperem mudanças radicais. A exemplo de Netanyahu nos primeiros meses de seu governo, Barak a princípio não se apressou em manter reunião com Yasser Arafat. Mas, sob a pressão dos EUA, telefonou para o líder palestino na semana passada e concordou em combinar um encontro logo depois que tomar posse esta semana. Barak prometeu retirar o Exército israelense de sua autoproclamada zona de segurança no sul do Líbano em junho próximo. Mas, se Barak precisou de 45 dias para costurar a coalizão governista, é difícil imaginar que ele vá ter pressa de entrar num acordo de paz com Arafat ou com o presidente sírio Hafez Assad. "Ele será um negociador muito paciente e vagaroso que vai demorar-se muito no processo de paz", prevê o ex-assessor de Barak.
Barak continua tão enigmático quanto antes. Ele teve vitória esmagadora nas eleições; a seguir demitiu seu pessoal de campanha, substituindo-o por partidários mais íntimos, escolhidos com base em sua longa carreira de militar. Manteve à distância muitos de seus colegas membros do Partido Trabalhista nas semanas de intensas negociações com parceiros da coalizão, e muitos deles se declaram ressentidos. "Os que o conhecem bem conhecem-no dos tempos do Exército", diz um parlamentar trabalhista. "Mas não o conhecemos. Ele é uma pomba? É um falcão? Vai assinar a paz com os sírios? Com os palestinos? É o que o povo tenta saber a partir de alguns indícios."
Alguns que trabalharam para Barak fazem advertências; o novo primeiro-ministro, dizem, tem um marcante senso de autovalorização (Este é um homem que se saiu muito bem em praticamente tudo que tentou). Ele é um soldado ou um político? (Nenhum conselheiro foi recrutado entre as dezenas de assessores que trabalharam para Barak desde que ele ingressou na política em 1995). Ele faz segredo de suas intenções e não vê nenhum mal nisto.
"Pelo que parece, ele acha que não precisa de conselhos", diz um colega membro do Partido Trabalhista que conhece Barak há anos. "Ele ainda tem resquícios de sua formação de caserna e pensa que só precisa de gente para cumprir suas ordens. Espero que ele consiga se adaptar ao ambiente político, mas isto demora." Barak pode esperar que os americanos e os palestinos façam mais pressão para que ele acelere as conversações de paz.
Mas, se o novo primeiro-ministro planeja dominar a arte de administrar tão lentamente quanto montou sua coalizão, um amplo acordo com os palestinos talvez ainda esteja bem distante.


