Patrimônio de subúrbios do Rio é destaque em livro
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de março de 1999
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 09 (AE) - Para resgatar uma dívida com o patrimônio da cidade, sobretudo com os subúrbios, a Secretaria Municipal de Urbanismo do Rio lançou o livro "Por onde passa e proximidades", da fotógrafa e arquiteta Vera Voto. O trabalho reúne fotos de antigos casarões, igrejas, fazendas de engenho, sobrados e simples casas dos mais variáveis estilos - colonial, kitsch, art decó, modernista e até mourisco. Marcas do tempo que compõem o mosaico de influências da arquitetura dos subúrbios do Rio. Segundo Vera, a intenção do livro é despertar o olhar do carioca para os detalhes de sua cidade. "Quem passa pela Linha Amarela muitas vezes não percebe quantas jóias raras estão ao seu redor", diz.
Jóias como o castelinho, sede Fundação Oswaldo Cruz, em Bonsucesso, e a Basílica Coração de Maria, no Méier, ambos em estilo mourisco. As obras da igreja, iniciadas em setembro de 1908, por exemplo, demoraram 21 anos para serem concluídas. Os templos religiosos, aliás, permeiam a via expressa. E nos mais variados estilos. Uma das que mais chamam a atenção é a Igreja de São Daniel Profeta, encravada na perigosa Favela Parque São Jorge, em Manguinhos. Ela não tem adornos coloniais, como a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Ilha do Governador, datada do século 17, mas leva o nome de um dos maiores arquitetos modernistas brasileiro: Oscar Niemeyer.
A idéia de mapear as construções ao longo do traçado da Linha Amarela foi do prefeito Luiz Paulo Conde, quando ele ainda ocupava a Secretaria de Urbanismo no governo César Maia. Com a idéia na cabeça, Vera saiu a campo. Demorou oito meses para catalogar 470 fotos, das quais 60 foram selecionadas para o livro. O trabalho resultou em 172 pedidos de estudo para tombamento, e, pelo menos, 20 foram concedidos.
A pesquisa influenciou até no traçado final da via expressa, que foi mudado para preservar os portões da Fonte de água Mineral Santa Cruz, datado do século 19. A fonte, descoberta por um escravo forro, era conhecida por suas supostas virtudes curativas e acabou dando nome ao bairro onde foi construída - água Santa, que atualmente abriga um dos mais conhecidos presídios masculinos da cidade, o Ary Franco.
Apesar da opulência das igrejas e dos casarios coloniais - como a bucólica sede da Fazenda Engenho d água, do século 18, na agitada Avenida Ayrton Senna, em Jacarepaguá -, são os sobrados e casas simples ou germinadas (comuns nos subúrbios cariocas) que mais se destacam no livro. São construções feitas pelos próprios donos, com ornados pré-fabricados e comprados "a metro", que se apresentam nos estuques de motivos florais, nos frontões sobre as janelas, nos santinhos em azulejo. Estilizações kistch de uma época em que a beleza era morar em casas diferentes, e não em caixotes iguais e retos chamados de prédios.


