Pataxós são constrangidos pela PM baiana, acusa Funai; FHC recebe líderes indígenas com o governo em alerta
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terça-feira, 11 de abril de 2000
Por Hugo Marques e Chico Araújo 
Brasília, 12 (AE) - O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Carlos Frederico Marés, disse hoje que os índios pataxós estão sendo "constrangidos" pela Polícia Militar da Bahia e pela Comisssão dos 500 Anos, presidida pelo ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca. O governo federal está em estado de alerta para o risco de conflitos entre a polícia da Bahia e os índios. Amanhã (13), às 16 horas, o presidente Fernando Henrique Cardoso recebe uma comissão de 12 líderes indígenas, durante protesto de 1.300 índios, em Brasília.
Marés afirmou que os índios brasileiros sofreram constrangimentos ao longo da história do País. Hoje, o fim de uma reunião com o novo ministro da Justiça, José Gregori, e com parlamentares da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Câmara, Marés afirmou que os pataxós estão sendo "constrangidos" pela PM da Bahia, que derrubou um monumento que estava sendo construído na entrada da aldeia, e pela Comissão dos 500 Anos, "que não dá direito de voz aos índios". O presidente da Funai defende o direito dos índios de construir o monumento que quiserem. "Os índios estão sendo constrangidos a não fazer um monumento de protesto ao constrangimento".
O Ministério do Esporte e Turismo foi informado sobre as críticas do presidente da Funai. A assessoria do ministro estava
no início da noite, tentando repercutir o assunto com Greca. A assessoria informou que o governo foi convidado pelos próprios índios para participar das comemorações, sugerindo que as críticas seriam infundadas. Igreja - A Igreja Católica recebeu, e repassou ao governo, informações sobre as pressões a que estariam sendo submetidos índios, sem-terra e minorias na Bahia. A PM estaria pedindo carteira de identidade a essas pessoas, para circular em áreas próximas à aldeia pataxó.
A pedido de José Gregori, o presidente Fernando Henrique Cardoso recebe amanhã representantes de tribos que estão ajudando a coordenar a marcha. Os índios entregarão ao presidente uma lista de reivindicações, entre elas a demarcação de suas terras e a aprovação de legislação de seu interesse no Congresso. As autoridades querem discutir uma forma de evitar conflitos na Bahia. A Igreja Católica também teme conflitos entre índios e policiais militares nas próximas semanas.
O presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), dom Franco Masserdotti, disse que está um pouco "apreensivo" quanto à possibilidade de conflito. Ele disse não confiar mais na polícia baiana para proteger os índios, durante as manifestações dos 500 anos. Segundo ele, o governo da Bahia já se dispõe a indenizar os pataxós pela derrubada do monumento que estavam construindo, pagando os R$ 5 mil que eles pediram.
Perdão - Hoje, o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Raymundo Damasceno, voltou a pedir perdão aos índios e aos negros, em nome da Igreja Católica, que reconhece sua omissão em torno da escravidão e diante de sucessivos massacres de índios, ao longo da história. Dom Masserdotti disse ainda que os govenos federal e da Bahia deveriam também pedir perdão aos brasileiros.
Líderes indígenas que coordenam as marchas também participaram da coletiva na CNBB, hoje. O índio Orlando Boré disse que os povos indígenas pretendem realizar uma "campanha contra a comemoração triunfalista, com gastos excessivos do governo". Ele disse que se os índios reconhecessem o "descobrimento" a partir da chegada dos portugueses ao País seria o mesmo que considerar os próprio indígenas uma "sub-raça".
Os índios querem discutir com o governo federal a aceleração nas demarcações de terras e o Estatuto do Índio, que tramita no Congresso, antes que o projeto seja votado. Segundo os organizadores do movimento, cerca de 1.300 índios participam amanhã de uma marcha no centro de Brasília. Eles planejam realizar um ato público entre 10 e 13 horas, na Câmara dos Deputados. Às 16 horas, será realizado outro ato na Praça dos Três Poderes. Coroa Vermelha - O presidente Fernando Henrique Cardoso não deverá mais participar da inauguração do monumento criado por Mário Cravo em Coroa Vermelha, no sul da Bahia, na festa dos 500 anos do Descobrimento, em 22 de abril. Segundo a assessoria da Presidência da República, a participação do presidente nesta solenidade foi cancelada por questões de segurança. O presidente só vai a lugares onde não haja dificuldades de deslocamento, e o acesso a Coroa Vermelha é feito por uma única estrada.
O presidente manteve, entretanto, a parte restante de sua programação no sul da Bahia para os festejos. Esta programação se inicia no dia 21, com um jantar no Hotel Transamérica, em Comandatuba, nas proximidades de Ilhéus, oferecido ao presidente portruguês, Jorge Sampaio. No dia 22, pela manhã, Fernando Henrique vai de avião a Porto Seguro para participar de diversas solenidades, retornando no fim do dia a Comandatuba.


