Pastore pede um choque fiscal para enfrentar a crise
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quinta-feira, 28 de janeiro de 1999
Por Rita Tavares 
São Paulo, 28 (AE) - O ex-presidente do Banco Central, Afonso Celso Pastore, acredita que o Brasil só resgatará sua credibilidade se fizer um choque fiscal. Sem um corte drástico de seus gastos, o governo não conseguirá conter uma escalada inflacionária e o agravamento da recessão interna brasileira. Pastore sugere uma política fiscal "mais austera" do que a proposta no acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e em processo de votação no Congresso.
"Quando voltar a confiança no País, voltam os investidores externos", afirmou Pastore, prevendo que a recessão neste ano será maior do que 1%. Segundo ele, o fluxo cambial não voltou, porque há um "hiato de credibilidade" já que o governo tem dificuldades fiscal, externa e de drenagem de recursos desde o começo da crise financeira.
Sem arriscar números, Pastore também espera a volta da inflação. Ele citou previsäes de bancos privados que estimam uma inflação acumulada em 99 de 35%. Segundo ele, o governo ainda "não falou direito sobre o assunto", embora o ministro Pedro Malan tenha estimado uma inflação de até 10% em 99. "A Fipe ainda não fez as contas", acrescentou, referindo-se a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, que reviu hoje sua previsão de uma inflação de 6% para 8%.
"Ninguém tem certeza de uma previsão", acrescentou o economista, dizendo que a previsão dos bancos, baseada em cálculos, leva em consideração a desvalorização do real deste momento, que já ultrapassou o patamar de 50%. Ele ponderou que alguns preços internacionais, como o do trigo, já subiram, tendo já atingido inclusive o consumidor final.
Desvalorização excessiva - Pastore não arrisca em qual patamar ocorrerá a estabilização do real frente ao dólar. Segundo ele, houve uma desvalorização excessiva da moeda brasileira, porque a decisão de adotar a flutuação ocorreu, quando a credibilidade do País "já estava destruída". A falta de credibilidade também seria a justificativa para a contínua saída de dólares do País. "Em algum momento vai haver um preço e a cotação recuará", afirmou explicando que qualquer estimativa sobre que prazo será esse é apenas um palpite ou desejo. "Poderá ser um preço muito alto." Pastore descarta a possibilidade do Banco Central adotar a centralização cambial como forma de solucionar a crise cambial. "O custo é muito grande. É uma moratória que vai provocar sérios danos ao País", disse.
O ex-presidente do Banco Central acha que o risco da decretação de uma moratória interna é muito pequeno. "Seria a última opção do governo por ser uma medida muito custosa, que provocaria um dano imenso no patrimônio das pessoas", disse. Antes de optar por uma moratória o governo, de acordo com Pastore, tentará resolver a crise através de um choque fiscal e, caso ele não ocorra ou não dê certo, o governo emitiria moeda. Pastore acredita que o governo deve adiar seu calendário de privatizaçäes até que a presente crise financeira esteja equacionada. "É preciso tirar a turbulência da frente", disse o ex-presidente do Banco Central, admitindo que o leilão de uma empresa estatal nesse momento seria prejudicado pela extrema desvalorização do real frente ao dólar.
Convite - O economista negou que tenha sido convidado ou até mesmo sondado pelo governo para integrar a equipe econômica. "Eu não faço parte desse governo", disse, explicando que seria muito mais conveniente a convocação de um tucano. Ele citou a reunião que o ministro Pedro Malan teve na noite de ontem com o ex-presidente do BNDES, André Lara Rezende, para demonstrar qual seria o interlocutor procurado pelo governo num momento de crise.
Pastore admitiu que recebeu um convite do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC) para ocupar a direção da faculdade da instituição em São Paulo, mas que ainda não decidiu sobre o assunto. Pastore está se aposentando dos quadros da Universidade de São Paulo (USP), transferindo-se para a Fundação Getúlio Vargas.


