"Passo em falso" de Jospin desencadeia guerra com Jacques Chirac
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de fevereiro de 2000
Por Gilles Lapouge, correspondente 
Paris, 27 (AE) Lionel Jospin, esse homem tão sábio, tão prudente, tão calmo e tão experiente, que não deu um único "passo em falso" nos mil dias em que é o primeiro-ministro (de esquerda) do presidente (de direita) Jacques Chirac, passa 24 dias no Oriente Médio, e provoca uma explosão. O incêndio está espalhado por toda a parte: na Palestina e em Damasco, em Beirute e em Amã. E também em Paris.
O que o aconteceu ali que atingiu Jospin para levá-lo a pôr fogo naquela máquina? É muito simples: no Oriente Médio há duas facções que se combatem "com derramamento de sangue" há cinquenta anos (ou melhor, há mil anos). Israel de um lado, os povos árabes do outro.
A França se esforça para manter o equilíbrio em os dois. Mas, desde De Gaulle - e por causa das ligações muito antigas da França com os árabes, sobretudo com o Líbano e a Síria - Paris concede um ligeiro favor aos povos árabes (sem, no entanto, desprezar ou penalizar Israel).
Foi esse equilíbrio sutil que Jospin comprometeu. Começando sua viagem por Jerusalém, apresentou-se logo como um amigo entusiasta de Israel, o que é muito legítimo, mas ele fez disso um pouco mais: tomou partido de Israel em seu conflito com o Líbano, chegando até a chamar o Hezbollah de "terrorista" (o Hezbollah, esse exército de xiitas do sul do Líbano, que luta com armas e bombas contra a ocupação ilegítima de seu território pelos soldados de Israel).
Uma palavra: "terroristas". Uma palavra e eis a tragédia. Os homens do Hezbollah (e, atrás deles, todos os árabes do Oriente Médio) não se consideram "terroristas", mas "resistentes" ou "soldados". Desde então, uma vez pronunciada essa palavra, o destino de Jospin foi selado: no dia seguinte, ele foi à Palestina, à Gaza, para levar apoio da França aos palestinos.
Mas o mal estava feito: os estudantes palestinos, enraivecidos, atacaram Jospin. O primeiro-ministro francês passou alguns momentos de inferno, envolvido em um turbilhão irado. De todos os lados, foram atiradas pedras contra ele (uma pedra atingiu sua cabeça). Ele conseguiu entrar em seu carro blindado. Alguns enfurecidos subiram na capota do carro que, enfim, saiu como um tornado. Logo depois, as capitais árabes vociferaram.
Essa foi a parte "árabe" da aventura de Jospin. Mas há uma parte francesa. Para compreendê-la, é preciso lembrar que a França submeteu-se a um estranho poder político "bicéfalo": o presidente da República e o primeiro-ministro.
No momento em que esses dois homens não pertencem à mesma corrente política, fala-se de "coabitação". É o caso, hoje, com a dupla Chirac (direita) e Jospin (esquerda). Há dois anos, a "coabitação" andava muito bem. Jospin aceitava que alguns domínios, entre eles a diplomacia, fossem "reservados" apenas ao presidente da República, Chirac (era um costume, não uma regra).
Mas, há algumas semanas, Jospin, embriagado com seus êxitos e sua popularidade, tentou "mordiscar" o "domínio reservado" do presidente Chirac, principalmente a "política externa".
Ele considerou que o Oriente Médio era uma boa alavanca para realizar esse "sacrilégio": definir a linha da França nessa região, sem levar em conta orientações dadas anteriormente por De Gaulle, em seguida, continuadas por todos os governos franceses e respeitadas também por Chirac.
Jospin avaliou mal? Pensou poder passar à força? Se não foi assim, ele cometeu uma gafe. De fato, falar dos "terroristas do Hezbollah" incendiou todo o Oriente Médio. E dar, assim, ao presidente Jacques Chirac uma oportunidade abençoada de restaurar seu prestígio, de lembrar que ele é o "dirigente" da República e que seu primeiro-ministro está às ordens de Chirac e, além disso, que Jospin quer se mover inteiramente só com toda a independência, causa uma catástrofe!
Foi o que aconteceu: Chirac faz, como todo o mundo, muitas bobagens, mas é uma grande fera: há dois anos, ele espreita seu primeiro-ministro, contendo sua impaciência, à espera de que Jospin dê, um dia, uma virada brusca. Até aqui, Jospin não havia cometido uma única besteira. E eis que no dia em que se completam 999 dias de seu reinado como primeiro-ministro, de repente, ele faz mais do uma besteira: um enorme erro.
E Chirac urrou, e Chirac deu um salto. Do fundo de sua toca, ele dá uma primeira patada terrível em Jospin, ainda na Cisjordânia, intimando-o a entrar em contato com ele logo que voltar a Paris.
Advertência humilhante: Jospin, como uma criança que fez uma besteira, foi intimado a ir imediatamente ao encontro do "diretor da escola" que vai lhe puxar as orelhas.
Mas Jospin não obedeceu. Ele não se submete à ordem humilhante dada por Chirac; em sua volta antecipada a Paris, essa noite, assediado pelos jornalistas, Jospin disse que de fato, evidentemente, vai se encontrar com o presidente da República. "Mas quando? Hoje à noite mesmo?" E Jospin responde: "Bem, na próxima quarta-feira, como semanalmente, antes da reunião dos ministros".
Eis o ponto em que estamos: a guerra, há dois anos, latente entre eles, desencadeou-se agora. Chirac tem uma vantagem. Indiscutivelmente, Jospin cometeu uma "gafe". Mas ele pode redirecionar a situação. Os próximos dias vão nos oferecer um espetáculo apaixonante, um verdadeiro capítulo de um romance do qual não se pode prever o epílogo, pois, finalmente, vamos ter que nos perguntar dentro de poucos dias, com frieza, se o que Jospin disse, por mais besteira que tenha sido, não reflete, no entanto, a verdade.
Um elemento talvez pese nessa "mini-tragédia". Embora seja verdade que Jospin deu uma derrapada (bem à sua moda), em compensação, é preciso reconhecer uma coisa: durante os incidentes delirantes, na Palestina, quando as pedras lhe foram atiradas (e Deus sabe como as pedras palestinas podem ser mortíferas, como demonstra a longa luta da intifada entre jovens palestinos e israelenses), Jospin demonstrou ter sangue-frio, coragem e uma calma admiráveis. E isso, que todas as redes de televisão mostraram, pode também ter sua importância.


