Passeta reúne 10 mil em região violenta de São Paulo
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segunda-feira, 01 de novembro de 1999
Por Uilson Paiva 
São Paulo, 02 (AE) - Acostumadas a um cotidiano de morte
cerca de 10 mil pessoas reuniram-se no Dia de Finados para fazer uma celebração da vida. Em passeata, percorreram as ruas dos bairros mais violentos da cidade, Jardim ¶ngela e Capão Redondo, na zona sul. Conforme combinado, cada participante deveria carregar uma fita com o nome de um amigo, vizinho ou parente assassinado. Foi quase impossível encontrar na multidão alguém que não a tivesse.
O ponto final da manifestação foi o Cemitério São Luís, local onde são realizados, em média, 30 enterros por dia, 70% deles de jovens assassinados, entre 15 e 25 anos. Entre os presentes, na 4ª Caminhada pela Vida e pela Paz, foi ainda mais difícil encontrar alguém que não tivesse parentes, amigos ou vizinhos enterrados lá.
Nas mãos de Maria José Adivincola, de 52 anos, podia-se ler três nomes escritos em um cartaz. "São todos meus sobrinhos
foram assassinados e estão aqui", contou. Ouvir Maria José é entender um pouco do que toda aquela gente pedia ontem.
Apontando para o cartaz, ela prosseguiu: "O Marcos morreu de tiro e o Paulo jurou de morte quem matou o Marcos; só que mataram o Paulo antes." Vanderlei, o terceiro nome da lista
foi assassinado num bar. A história de violência na família não começou nem deve parar por aí. "Tenho um filho de 16 anos que está andando em má companhia e todos já estão jurados de morte"
disse, resignada. "Eu já entreguei para Deus."
A poucos metros dela, estavam Marcelo Luís, de 34 anos, e suas duas filhas, Pâmela e Luciana, de 10 e 9 anos. Todos vestidos de branco, cantavam e rezavam. "Meu cunhado foi assassinado com 12 tiros na semana passada e está enterrado aqui", disse. "Tenho outro amigo, morto no bar do meu pai, que veio parar aqui também."
Pâmela interrompeu a conversa. "A gente veio aqui para ver se melhora o mundo." O pai sorriu. Luciana pegou a deixa. "O governo tem de tirar os meninos da rua para eles não usarem mais drogas."
Enquanto os presentes acompanhavam os discursos, integrantes de associações comunitárias aproveitavam para colher assinaturas, pedindo coisas básicas, mas ainda distantes. "Já colhi quase mil assinaturas para pedir mais unidades de saúde e médicos", observou Carlito Lima de Almeida, de 60 anos, da Paróquia São Sebastião.
Geraldo Casabona, de 43 anos, programava um abaixo-assinado pedindo educação. "O Estado vai terminar com o primeiro ano nas escolas e passar para as municipais, só que não tem escola municipal perto", justificou. Se o governo não colabora com o básico, Casabona faz o que está ao seu alcance. "Estou ensinado as crianças a jogar xadrez, assim pelo menos eles não ficam na rua."
Na zona sul, ficar na rua é uma espécie de eufemismo para tragédia. "Perdi três alunos assassinados este ano", contou a professora de história Joana Aparecida Martinho. "Eles ficam soltos, não têm família para aconselhá-los, então, em vez de história, hoje eu tenho de ensinar as crianças a sobreviver."
O capitão PM Marco Antônio Severo subiu ao palco para homenagear os colegas mortos, vítimas da violência na região. Numa fita, em seu braço, os nomes do soldado Paulino, capitão Tucci, cabo Sebastian, soldado Newton e soldado Luciana. Ao microfone, apropriou-se do bordão de Geraldo Vandré para falar à comunidade: "Somos todos iguais, braços dados ou não." Foi aplaudido.
Semente - Até os religiosos exibiam o nome de suas vítimas nas fitas. O mais lembrado foi frei Adilson, capuchinho assassinado há dois anos quando chegava à paróquia. O padre Rubens Pedro Cabral explicou a simbologia do manifesto pela vida no cemitério: "A semente morta plantada aqui vai gerar a vida; queremos que o assassinato de hoje seja o último."
Antes dos abraços de confraternização e da missa, que encerraram o evento, o grupo de rap Os Libertários soltou a voz. "Moradia e saúde/ para melhorar a vida do morador da periferia/Não, não é certo morrer desta forma/ Desse jeito, onde é que vai parar o Brasil?"


