Ivaipor㠖 "De graça, até injeção na testa é bom." A frase do pedreiro Celso Alves Tavares, de 45 anos, resume o sentimento que domina a população de Ivaiporã (Vale do Ivaí) em relação ao sistema público de transporte coletivo do município, que opera com tarifa zero há 12 anos.
Pelas ruas da cidade, os moradores deixam a sensação de que há pelo menos duas convicções sobre o tema: que o transporte de graça é uma conquista irreversível e que o sistema precisa ser melhorado.
A reportagem da FOLHA foi conhecer como o município consegue bancar o serviço e se deparou com ônibus em mau estado, longos períodos sem circulação e queixas de superlotação, embora todos os passageiros ouvidos na viagem da linha Vila Nova Porã, que liga o bairro ao centro em cerca de 15 minutos, tenham ressaltado que a passagem grátis beneficia principalmente os mais pobres. "Pesa para o município sim, mas é muito importante para a população de baixa renda", avalia o prefeito Luiz Carlos Gil (PMDB).
De acordo com informações do próprio prefeito, o sistema custa cerca de R$ 600 mil anuais ao erário. Metade dos gastos é com óleo diesel e a outra metade com salários e encargos dos motoristas. Os oito ônibus e as cinco linhas que cortam a cidade (a maior delas de apenas sete quilômetros de extensão, contando a ida e a volta) transportam cerca 730 mil usuários em um ano. Cada deslocamento custa, portanto, R$ 0,81 aos cofres municipais.
"Com este dinheiro, poderíamos gastar mais com o maquinário da prefeitura, que não está em bom estado. Mas a população impõe a manutenção do serviço e vamos continuar oferecendo como um ação social", afirmou Gil.
O peemedebista disse que municípios do mesmo porte de Ivaiporã podem seguir o exemplo, mas que o grande empecilho é a aquisição dos ônibus, um investimento alto. O orçamento de Ivaiporã, município de cerca de 32 mil habitantes, é de cerca de R$ 50 milhões.
O sistema aguarda investimentos e isso pode ser visto em apenas uma viagem, como fez a reportagem. O ponto inicial da Vila Nova Porã, onde a linha é servida por um ônibus biarticulado, tem problemas visíveis. Em um dia de chuva, como na quarta-feira, o piso fica todo molhado. O forro tem buracos e a construção está toda pichada. Dentro do ônibus, o aspecto é de um veículo velho e sujo. E muito reclamam que os coletivos não circulam entre 8h30 e 11h30 e entre 13h30 e 17 horas. A justificativa é que o público-alvo são trabalhadores e estudantes.
"Uso todo dia e aprovo. É importante pra gente. O único problema é que quebra muito e às vezes todo mundo tem que descer e sair caminhando", disse a dona de casa Elaine Jeronimo, de 19 anos, que carregava nos braços o filho Gabriel, de 11 meses, que iria passar a tarde com a avó no centro da cidade. Outros usuários lembraram de problemas nas portas, muitas vezes armadilhas perigosas. A prefeitura, contudo, aponta que tem um ônibus reserva para a eventualidade de uma quebra.
A administração municipal planeja reduzir as críticas ao sistema com a edificação de 30 abrigos e a reforma do terminal central, na Praça da Matriz. O prefeito também batalha junto aos deputados federais uma emenda parlamentar para a aquisição de novos ônibus. "A intenção é manter uma frota mais nova para que os gastos com manutenção caiam para praticamente zero", afirma o coordenador de transporte, Pedro Donizete Talarico. Na frota, o veículo mais novo tem 15 anos e o mais velho, 30.
Moradores que não quiseram se identificar também reclamam do "uso recreativo" do transporte, o que faz poltronas e corredor ficarem ainda mais cheios no horário de pico. "Acho que deviam cobrar uma moeda, 25 ou 50 centavos, para que somente quem precisa usasse os ônibus. Tem muita gente que usa o ônibus sem necessidade e deixa os trabalhadores em pé no corredor", disse uma pequena comerciante. "Mas se cobrar, vai virar confusão, igual em São Paulo", rebateu um cliente do local, discordando da cobrança.

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