O acidente com um ônibus da empresa Brasil Sul, que fazia a linha Florianópolis/Londrina, no começo da manhã de sábado, em Tamarana (Região Metropolitana de Londrina), revelou uma prática comum durante as viagens: a falta de uso do cinto de segurança. Alguns passageiros contaram que estavam sem o item de segurança no momento em que o veículo tombou após supostamente derrapar em uma curva. Três pessoas morreram no acidente e 34 ficaram feridas.
Deixar de usar o cinto de segurança, na opinião de Noedi Bertazzi, da chefia de Programas Educativos de Trânsito do Departamento de Trânsito do Paraná (Detran-PR), é "um abuso de autoconfiança". "O passageiro acredita que está protegido pelo banco da frente e tem a falsa ideia de que não há necessidade do cinto", comentou.
O cinto, no entanto, evita que numa situação de uma frenagem brusca o passageiro seja projetado para a frente. "O impacto do corpo solto vai ter outra proporção do que o corpo preso. Sem o cinto, ele é uma carga viva que vai ser projetada para frente e para o teto, provocando ferimentos graves", alertou Noedi.
Em casos de capotamento, o risco do passageiro ser arremessado para fora do veículo é maior. "Durante uma freada brusca, batida ou capotamento, o nosso corpo solto pode chegar a pesar uma tonelada. Esse corpo pesado vai se debater dentro do veículo, ocasionando ferimentos mais graves", acrescentou.
A reportagem entrevistou passageiros pouco antes de deixarem o Terminal Rodoviário de Londrina na tarde de ontem. O aposentado Milton Pucena, de 59 anos, conta que não costumava utilizar o cinto de segurança até sofrer um acidente. Ele tinha ido ao banheiro e não afivelou o cinto quando voltou para a poltrona. Logo depois, o ônibus bateu e ele foi jogado contra o banco da frente. "Não me machuquei, mas agora só ando de cinto. Incomoda, mas tem que usar", disse.
A auxiliar de cozinha Vanessa Baleki, de 33, também afivela o cinto assim que senta na poltrona. "Já teve vezes que o motorista freou de repente e o cinto me segurou", contou. Para a nutricionista Anália Camargo, de 33, o cinto é a diferença entre a vida e a morte. "Tem que usar. Pode acontecer uma acidente e você pode morrer à toa", comentou.

ORIENTAÇÃO
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) publicou em 2004 uma resolução que determina a obrigatoriedade dos motoristas explicarem aos passageiros as normas de segurança antes das viagens e recomendar o uso do cinto. Foi durante essa explanação que Bianca Nogueira Leita da Silva, de 18 anos, percebeu que usava o cinto de forma errada quando viajava com as irmãs pequenas.
"Eu levava as crianças no colo e colocava o cinto só em mim. Daí o motorista disse que era para colocar nelas também. Agora, eu passo o cinto por cima delas. Fica mais seguro", contou Bianca, que viajava com o pai e as irmãs Amanda, de 3 anos, e as gêmeas Julia e Laura, de 2.
Motoristas de ônibus comentam que nem todos seguem a recomendação. "Eles até colocam na hora que falamos e passamos vistoriando. Mas durante o trajeto eles tiram", disse um motorista que preferiu não se identificar.
O lavrador Milton Abreu da Silva, de 53 anos, afirmou que não gosta de usar. Segundo ele, em alguns casos o acessório pode prejudicar o salvamento em um acidente. "Existe um momento que acho que o cinto mata. Olha esse acidente com ônibus no sábado, o ônibus ficou destruído de um lado. Se todos tivessem de cinto tinham morrido. Eu só uso se pedirem", disse.
Os fiscais da ANTT fazem a verificação do uso do cinto nos terminais antes da partida ou na chegada dos veículos. As polícias rodoviárias Federal e Estadual também fiscalizam o uso durante o percurso.
Para a funcionária do Detran, as pessoas precisam ter a percepção do risco que correm no trânsito. "É preciso estar preparada para uma situação de emergência. Infelizmente, o não uso do cinto de segurança é uma falha comportamental. Os motoristas dos ônibus avisam sobre a exigência do uso do cinto, mas essa concepção de segurança tem que partir da pessoa."

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