O que deveria ser uma viagem de alto padrão tem gerado reclamações entre passageiros da Viação Garcia. Em diferentes trajetos e desde 2024, usuários do serviço cabine cama relatam infestação de percevejos, com casos que envolvem picadas durante o trajeto e até contaminação das casas após o retorno.

A jornalista Isabela Nicastro Salvador relata ter sido vítima recente do problema após viajar de Londrina a Curitiba, no início de abril, em um bate e volta para trabalho. Os sintomas das picadas só apareceram dias depois, já em Londrina. “Durante o fim de semana, em Curitiba, não tinha sentido nada. Elas [as picadas] começaram a aparecer e a coçar só na terça-feira, aqui em Londrina. No começo, nem imaginei que poderia ser isso, pensei que fosse uma reação alérgica. Foi quando tive um ‘estalo’, pesquisei sobre isso e encontrei pessoas com a mesma situação, as mesmas marcas, reclamando que tinha ocorrido na cabine cama da Garcia”, detalha. Ao todo, ela contabilizou 65 picadas pelo corpo.

Imagem ilustrativa da imagem Passageiros relatam infestação de percevejos em ônibus de viagem

Segundo a jornalista, os insetos também causaram infestação na casa dela, exigindo dedetização e a saída temporária da casa com a família. “Quando descobri isso na minha casa, eu entrei em pânico, tive uma crise de ansiedade grave. Não paro de pensar nisso, virou um trauma, estou virando quase uma especialista no assunto”, afirma.

Ela diz ter procurado a Viação Garcia após identificar a origem do problema e, novamente, ao constatar a infestação em casa. Segundo Salvador, a empresa afirmou estar ciente da situação e fez o reembolso das passagens, porém, segundo ela, o retorno só ocorreu após a divulgação do caso em plataformas online.

A médica Vanessa Diacópulos Silva é outra que relata o ocorrido. Dois episódios em um intervalo de três meses. No último ano da residência em Dermatologia, ela afirma que reconheceu rapidamente as lesões. “Minha primeira viagem em que vi os insetos foi em novembro do ano passado. Minha rota era entre Maringá e São Paulo. Para mim, foi bem fácil reconhecer [as picadas]”.

Já na segunda ocorrência, em fevereiro, afirma ter tentado se proteger, mas encontrou os insetos no próprio leito. “Como eu já tinha passado por isso uma vez, dessa vez levei meus lençóis, fui de meião e blusa de frio. Quando cheguei, levantei o meu lençol e olhei: estava cheio de percevejos”.

Sem pedir o reembolso da segunda viagem, a médica decidiu que, pela recorrência do caso e por se tratar de uma questão de saúde pública, a situação deveria ser levada ao Judiciário. Sem dar mais detalhes sobre o processo em andamento, a médica compartilhou que uma das audiências ocorreu na tarde desta quinta-feira (28).

Uma terceira passageira, que preferiu não se identificar, relatou ter encontrado diversos percevejos nos cobertores e na estrutura da cama após usar a lanterna do celular. Ela ingressou com ação contra a empresa e obteve decisão favorável. Afirma que o objetivo foi evitar novos casos e pressionar por soluções, mas diz que continua sendo procurada por outros passageiros e que o problema ainda não foi resolvido de forma definitiva.

OUTRO LADO

Diante das reclamações, a reportagem procurou o Grupo Garcia, que concordou em ceder uma entrevista exclusiva para comentar o tema. A convite da empresa, todo o processo de higienização e dedetização dos veículos foi acompanhado de perto, na sede do grupo, em Londrina.

A empresa afirma que tem buscado alternativas para conter o problema, após reclamações em novembro de 2025, segundo o gerente operacional Cesar Santos Amorim. Desde então, adotou novas medidas com apoio de empresa especializada. “Como não conseguimos avançar em resultados, procuramos empresas especializadas pelo país. Encontramos uma na região de Blumenau (SC). Eles nos apresentaram a proposta e, desde novembro, estamos aplicando essas novas medidas. O Grupo Garcia vem investindo cada vez mais nessa área de higienização”, diz.

Além da dedetização periódica, a companhia passou a utilizar o aquecimento dos veículos. “É como se fosse um micro-ondas, é algo em torno de 50 graus. Isso faz a reprodução parar, já que eles procuram por locais frios. Implementamos essa técnica há uns 25 dias. Investimos algo em torno de R$ 100 mil para a compra desses aquecedores em todas as garagens. Estamos há dez dias sem nenhuma incidência de reclamação. Assim que identificamos vestígios deles [percevejos], os tiramos de linha”, afirma. Segundo ele, veículos só voltam a circular após eliminação total dos insetos.

Quanto à devolução dos valores pagos, a Viação Garcia garante que se compromete a restituir as quantias recebidas desde que “seja comprovada a existência dos insetos nos veículos da empresa”. Entre as justificativas apresentadas pela empresa para corroborar essa exigência está o grande volume de “constatações improcedentes”, que utilizam manipulação de imagens por IA (Inteligência Artificial) e a reutilização de comprovantes entre clientes distintos.

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