São Paulo, 01 (AE) - O motorista de ônibus Valter Gomes Saturnino, de 30 anos, da Viação Santo Amaro, foi morto na tarde de hoje por um rapaz que, ao se negar a passar pela catraca eletrônica, criou tumulto, com cinco colegas, na porta do ônibus. Saturnino recebeu dois tiros na cabeça - um deles atingiu o olho - e morreu quando era transportado para o pronto-socorro do Hospital São Paulo.
Às 14h30, Saturnino dirigia um ônibus com três portas e fazia a linha 637-P - Santo Amaro-Pinheiros. Próximo ao ponto da Rua Afonso Brás, no corredor Santo Amaro-9 de Julho, um grupo de seis rapazes entrou pela porta do meio, evitando passar pela catraca eletrônica instalada na porta de frente.
"Nas escadas eles começaram a zoar, impedindo que a porta fosse fechada e quase derrubando uma mulher que tentava subir", disse Marcos Ricardo, do Sindicato dos Motoristas e Cobradores, que esteve no local ouvindo testemunhas.
Ricardo informou que Saturnino trabalhava há cinco anos na linha e conhecida muito bem seu serviço. "Para evitar que alguém caísse numa curva, devido a porta estar aberta, o Saturnino desceu do veículo e pediu para que os rapazes parassem com a bagunça ou deixassem o veículo", acrescentou. "Na calçada, um dos rapazes disparou dois tiros, atingindo a cabeça do motorista." O assassino fugiu. Uma equipe do resgate do Corpo de Bombeiros levou o motorista para o pronto-socorro, onde chegou morto.
Revoltados, motoristas e cobradores de outros veículos bloquearam a avenida nos dois sentidos a partir da Rua Afonso Brás. Outro bloqueio foi montado nas proximidades da Avenida Adolfo Pinheiro. O trânsito ficou congestionado na região, até as 18 horas.
O engenheiro Paulo Viana, supervisor de operações da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), informou que o trânsito no sentido bairro foi desviado pela Rua Santa Justina. No sentido contrário, a alternativa era a Avenida água Espraiada.
Atritos - O crime ocorreu cinco meses depois de ter começado a funcionar em São Paulo o sistema de ônibus com catraca eletrônica. Dos 10.800 ônibus urbanos que circulam na cidade, 1.840 têm catraca eletrônica. Das 54 empresas, apenas 11 adotaram até o momento o sistema.
Nessas linhas, a catraca eletrônica tem provocado muitas discussões e atritos entre motoristas e passageiros. Sem a vigilância dos cobradores, muitos passageiros, principalmente jovens, pulam as catracas ou entram pela porta traseira para não pagar a passagem. Muitos usuários reclamam da dificuldade de se encontrar os bilhetes, que só podem ser comprados nos terminais ou em estabelecimentos comerciais credenciados. Nem todos funcionam 24 horas e aos domingos. Assim, sem o bilhete, os passageiros alegam que são obrigados a viajar sem pagar.
Nem a colocação da catraca eletrônica mais próxima do motorista - para tentar coibir o não-pagamento das passagens - conseguiu inibir os que estão decididos a andar de ônibus gratuitamente. Algumas empresas que já têm a catraca chegaram a recolocar os cobradores, para tentar inibir a evasão.
No momento do crime, o presidente e o secretário-geral do Sindicato dos Motoristas e Cobradores, com representantes dos perueiros, taxistas, do Transurb (sindicato patronal), da Secretaria Municipal de Transportes e da São Paulo Transporte (SPTran) estavam reunidos no Palácio das Indústrias, sede da Prefeitura de São Paulo, com o prefeito Celso Pitta debatendo as alternativas e planejamento do transporte público da cidade. Até o início da noite, eles não haviam se manifestado sobre o crime.

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