Pascoal deu início a operação de fuga após cassação
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quarta-feira, 22 de setembro de 1999
Por Edson Luiz, Hugo Marques (especial para a AE) e Sandra Sato 
Brasília, 23 (AE) - O ex-deputado Hildebrando Pascoal (sem partido-AC) tinha sido cassado por 394 votos na Câmara, ontem (22), quando deu início a uma operação de fuga pela noite fria de Brasília, que só terminaria na madrugada de hoje, literalmente acossado e obrigado a se entregar à Polícia Federal (PF). Nos locais onde parou a perua Towner, dirigida por um advogado bêbado, um sorridente Pascoal contrastava com um homem agressivo, que lamentava a divulgação dos crimes dos quais é acusado.
"Vocês passaram nove meses batendo-me", disse Pascoal, irritado, apontando o dedo e olhando para os jornalistas. "Não quero conversa com vocês", disse o parlamentar, enfrentando a chuva. "Minha conversa é com o Poder Judiciário." Vigiado por mais de 30 policiais federais, que só chamavam uns aos outros de "falcão", Pascoal sentia o poder desmoronando com o passar das horas. Segundo um policial, ele parecia "como coelho assustado".
Pascoal sabia que estava sendo perseguido desde a manhã de ontem pelos falcões da PF, todos do Comando de Operações Táticas (COT), o grupo de elite. Os falcões sabiam que não poderiam encostar as mãos no ex-deputado federal sem partido do Acre, mesmo após a cassação, sem antes receber o mandado de prisão. Além da dificuldade de vigiar alguém "informalmente", os federais não podiam confiar nas palavras do advgado dele, Eri Varella, que tentou, a todo o custo, desviar as investigações para prender o coronel do Acre, o mesmo que não quis defender no plenário da Câmara.
O coronel, que, segundo depoimentos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, gostava de filmar as vítimas que matava, foi flagrado pela própria câmera, de um prédio de apartamentos na SQS 208 Sul, que, automaticamente, acendeu uma luz e filmou-o quanto entrava num dos apartamentos de 187 metros quadrados que alugou. Seguido por um batalhão de policiais federais e alguns jornalistas, Pascoal procurou refúgio na casa de Varella, na QI 27 do Lago Sul.
Foi no bairro mais chique de Brasília que ele permaneceu por toda a noite, num telefone, de onde tentou fazer conchavos para ser inicialmente recolhido ao quartel da PM, no momento em que o juiz federal Pedro Francisco da Silva analisava o pedido de prisão. Foi lá que Pascoal teve o pedido negado pela PF. Foi na mansão que Pascoal ficou refugiado e não se sentiu seguro para sair e jantar com os advogados.
Os quatro advogados jantaram no Pizzaiollo, uma das mais famosas pizzarias de Brasília. Novamente, tentaram despistar a PF e a imprensa. Era início da madrugada quando Varela e Calmon foram para a QI 21, onde permaneceram até às 2h30, quando a Justiça Federal decretou a prisão de Pascoal. A notícia da prisão caiu como uma ducha de água fria no ânimo dos advogados. Varela foi para a PF negociar a prisão do cliente.
Acusado de ser um dos maiores algozes na atualidade, com dezenas de depoimentos que o ligam ao tráfico de entorpecentes e ao esquadrão da morte no Acre, o deputado tentou vender a imagem de vítima. Varela insistia na existência de um suposto plano de prisão arbitrária, antes da chegada do mandado judicial, pelo qual seria "morto" se reagisse à suposta prisão. Pacientes, os falcões ouviam tudo de longe, sob uma chuva fina, sem reagir, à espera do sinal verde para a captura.
O ex-deputado federal sem partido recebeu a notícia da prisão provisória por volta de 2h30 de hoje. Foi informado que não haveria negociação inicial e que seria recolhido à cela da Superintendência da PF em Brasília. O coronel e o advogado tentaram negociar com autoridades do governo do Distrito Federal
mas sem sucesso. O mandado de prisão era federal. Foi recolhido às 4h30 e chegou acompanhado à superintendência, escoltado por vários automóveis da PF. Já não ostentava o sorriso.
Pascoal também tentou sem sucesso evitar a prisão na PF via contato com a bancada de parlamentares que são militares e ou que tiveram apoio das PMs, que teria ajudado a garantir parte dos 41 votos contrários à cassação. Pascoal só conseguiu a transferência para a PM de Brasília hoje. O ex-deputado e coronel do Acre voltou a ostentar um sorriso, por estar onde queria.
O parlamentar do Acre, que até os últimos momentos antes da prisão não acreditava que pudesse entrar numa cela, evitou por diversas vezes comentar a estratégia que montou com os advogados. A PF acreditava que pudesse ter mais dificuldades para prender o coronel.
Antes mesmo da chegada dele à superintendência, em Brasília, os policiais federais que faziam plantão em diversos pontos entraram nos carros e sumiram pelas quadras.


