Hakkari (AE-REUTERS) - Em um restrito escritório no sudoeste da Turquia fica uma silenciosa televisão ligada num canal mostrando uma fita negra amarrada a um osso de boi - um sinal de luto por um canal rebelde curdo censurado por Ancara e fechado devido a sua defesa da violência.
A televisão pertence ao HADEP, o principal partido curdo legal da Turquia, que luta no que pode ser sua última campanha eleitoral antes de um provável banimento por parte de uma corte. O protesto silencioso deve acontecer enquanto os membros desta pequena cidade ousarem desafiar abertamente as autoridades.
A Turquia descreve o proibição britânica que já dura 21 dias à TV MED, baseada em Londres, como "um passo crucial na batalha contra o terrorismo", mais uma vitória que segue-se à captura do líder curdo rebelde Abdullah Ocalan. A TV MED está sendo acusada de ter transmitido chamadas para atentados e tiroteios.
Com sua incansável perseguição aos guerrilheiros de Ocalan nas montanhas e ataques legais aos ativistas curdos nas cidades, Ancara diz que está perto de resolver seu problema "sudeste". O nível de apoio ao HADEP, o único partido curdo restante nas eleições de 18 de abril, irá testar essa afirmação.
O HADEP enfrenta o desafio de ser banido por uma corte constitucional devido a acusações de que ele serve como instrumento do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) de Ocalan.
Mas no escritório de campanha de Hakkari, lar da televisão em luto, poucos acreditam que isso possa reduzir suas perspectivas. "Tudo o que queremos são nossos direitos. Eles nos chamam de terroristas, mas nós não somos. Somos curdos e nunca desistiremos de nossa identidade", disse o morador de uma vila no escritório do Partido da Democracia do Povo (HADEP).
Pelas ruas, muitos policiais ficam de vigia. Carros blindados constantemente percorrem a cidade. Postos armados em pontos altos supervisionam seus 50 mil habitantes. A polícia antiterror checa todos que deixam ou entram em Hakkari, um aglomerado de blocos baixos de apartamentos de concreto situado nas montanhas entre as fronteiras do Iraque e do Irã.
O HADEP quer a suspensão do banimento da propagação de uma cultura e língua curdas separadas, particularmente nos campos da educação e da transmissão de notícias. Os políticos de Ancara vêem as demandas como inspiradas pelas forças que procuram minar a estrutura unitária da Turquia e esfacelar o país.
Para Ancara, a demanda da HADEP para que haja um "arranjo pacífico" do conflito no sudeste é um convite para o impensável - negociações com o líder separatista que agora aguarda um julgamento por traição em uma ilha-prisão perto de Istambul.
Ocalan é acusado pela morte de 29 mil pessoas em uma campanha de 14 anos pela autonomia curda - entre eles professores e outros funcionários do estado e suas famílias. "Nós dizemos que o problema curdo deve ser resolvido através de meios justos, democráticos e pacíficos", disse o líder atuante do partido, Osman Ozcelik.
A distância que divide Ozcelik e os principais líderes sobre a ideologia oficial de um estado unitário é grande. "Não há um problema curdo", disse recentemente o primeiro-ministro Bulent Ecevit. "Há apenas o problema do terrorismo do PKK".
Em Hakkari, onde é regular a cena de tiroteios entre tropas e rebeldes fugindo pelas fronteiras, até os oponentes do HADEP reconhecem sua força eleitoral. "Nosso único concorrente é o HADEP", disse o chefe tribal Mustafa Zeydan.
Um membro da polícia antiterror indicado para Hakkari, vindo da mais próspera região oeste da Turquia, poderia ser mais moderado. "Os membros do HADEP são todos bandidos. Não há diferença entre eles e o PKK".
O HADEP ganhou 54% dos votos em Hakkari nas últimas eleições gerais em 1995 e 30% ao todo nas 11 principais províncias curdas sob efetivo governo de emergência.
Mas nenhum candidato pôde representar o partido no parlamento. Uma barreira de 10% destinada a excluir pequenos partidos da assembléia foi responsável por isso - um fraco comparecimento no oeste mais populoso fez o HADEP receber apenas 4,2% nacionalmente.
"Não importa se nós ou eles foram os primeiros. Eles não conseguirão e nós seremos eleitos", disse Zeydan, que ganhou as eleições em 1995 apesar de ter obtido menos do que a metade dos votos do HADEP.
O "Fator Ocalan" pode ajudar Ecevit no oeste do país onde há um ódio profundo em relação à campanha do PKK que matou milhares de soldados. Mas analistas dizem que no sudeste a captura do líder pode ajudar o HADEP.
Ocalan foi arrancado do Quênia por forças especiais turcas em fevereiro. Seus captores do exército então exibiram o líder rebelde triunfalmente com os olhos vendados e as mãos amarradas na frente das câmeras. "As cenas da televisão deixaram os curdos realmente furiosos", disse o observador. "Quando eles estão furiosos, humilhados e se sentindo curdos, eles votam para o HADEP".
O estabelecimento de refugiados curdos nos cortiços da cidade também pode beneficiar o partido. "Em 1995 havia muitas pessoas que tinham deixado seus lares. Eles eram o apoio natural ao HADEP e muitos deles não estavam registrados para votar, mas agora eles estão", ele disse.
Mesmo assim, poucos fora do partido prevêem que eles podem mais do que dobrar sua votação e ultrapassar os 10% necessários. Mas onde o HADEP pode ser bem-sucedido é nas eleições pelos municípios locais que serão realizadas junto com as eleições gerais.
O partido boicotou as últimas eleições locais em 1994, alegando intimidação. O controle do conselho de qualquer cidade pelo HADEP no sudeste certamente seria algo desconfortável para os governadores apontados pelo estado que usufruem de vastos poderes sob os termos de governo de emergência.
Líderes do partido dizem que isto já levou a atritos com as sempre presentes forças de segurança. "Eles estão dizendo que se o HADEP ganhar as eleições municipais, absolutamente não haverá investimentos do governo na área", disse Huseyin Umit, o maior candidato do partido em Hakkari. "Os policiais estão dizendo às pessoas que se elas votarem no HADEP, eles irão queimar e destruir nossa vila", disse Umit.
As autoridades negam as acusações de intimidação e colocam o HADEP como o vilão. O promotor-chefe Vural Savas acusa o HADEP de trabalhar com o PKK, pendurando a foto de Ocalan em seus escritórios e apoiando protestos pró-Ocalan. É o PKK, ele diz, que pressiona, ameaçando matar as pessoas que não votarem para o HADEP.
O HADEP nega qualquer ligação com os rebeldes. "Se a Turquia tivesse resolvido o problema curdo através de meios democráticos, não haveria o PKK", disse Umit. "A política de violência do estado turco contra os curdos deu força ao PKK".
A Turquia evacuou 330 mil pessoas de cerca de 3 mil aldeias curdas no começo dos anos 90 para negar apoio logístico ao PKK. Ativistas dos direitos humanos dizem que os números são maiores e acusam o exército de queimar casas e forçar pessoas a irem embora.
Até mesmo o mais próximo aliado de Ancara, os Estados Unidos, dizem que as forças de segurança turcas "cometeram sérios abusos contra os direitos humanos". Ozcelik disse que tamanha repressão alienou os curdos.
"Quando é mencionado o estado no sudeste, a imagem nas cabeças das pessoas é de batalhões, carros blindados, comandos, forças especiais, perseguições em vilas e guerra. Eles estão se tornando estranhos no estado e não há necessidade disto".

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