Buenos Aires, 21 (AE) - Segundo dados do ministério da Economia, em 1998, os trabalhadores argentinos receberam em salários o equivalente a 26,2% do Produto Interno Bruto. O anúncio indica uma profunda queda na participação dos assalariados na economia do país. No total, são 10 milhões de assalariados, incluindo aqueles sem carteira assinada, que recebem US$ 78 bilhões de forma líquida.
No passado, a participação dos assalariados no PIB era substancialmente maior: em 1950, no governo do general Juan Domingo Perón, a participação era de 55%, mais que o dobro do atual. Nos anos posteriores, a proporção foi caindo, até atingir o ponto mais baixo durante a hiperinflação de 1989, quando chegou a 24%. Após isso, houve uma recuperação. No entanto, a partir de 1993, apesar do crescimento de 20% da economia e da redução da inflação à quase 0%, os salários foram congelados, o desemprego aumentou e a participação dos salários no PIB caiu para os atuais 26,2%.
Segundo o Instituto de Estudos Fiscais e Econômicos (IEFE), a média salarial hoje é de US$ 700, enquanto que nos anos 50 era de US$ 1.428.
O IEFE sustenta que desde 1991 a queda do salário real foi maior nos salários menores. Nos salários maiores praticamente não houve quedas.
Outro índice que demonstra a crescente pobreza da sociedade argentina é o desemprego, que na Grande Buenos Aires teria crescido 5% desde outubro passado, chegando a atingir 18% dos trabalhadores. No cinturão industrial de Buenos Aires vivem 8 milhões de habitantes, e em algumas cidades da área o desemprego chegaria a 20% de desemprego. Embora os índices oficiais de desemprego somente serão anunciados em julho pelo ministério da Economia, o ministério do Trabalho anunciou ontem que estaria ao redor de 15% em todo o país.
Nesta segunda-feira também causou polêmica o anúncio de que 55% dos trabalhadores não possuem qualquer tipo de plano de aposentadoria.
Desta forma, 8,5 milhões de pessoas não poderão se aposentar no futuro próximo, nem receber assistência médica, mesmo do PAMI
o sistema estatal. Do total de 15 milhões de pessoas da população economicamente ativa, somente 6,5 milhões paga suas contribuições previdenciárias. A grande proporção de pessoas sem proteção social é atribuída ao crescimento de trabalhadores sem carteira assinada e à contratação de autônomos.
A Confederação Geral do Trabalho (CGT) está analisando a situação, e em sintonia com o governo, está disposta a aceitar a implementação de contratos por prazos definidos que não incluam indenizações. O único ponto que a central sindical se recusa a aceitar é a redução dos encargos sociais pagos pelos patrões. A intenção é que a flexibilização das relações trabalhistas permita o aumento do número de empregos.
Nesta terça-feira, governo e sindicalistas se reunirão para os acertos finais.
Mas, enquanto milhões de argentinos somente vêem no horizonte um panorama de incertezas e miséria, outro setor gasta mais do que nunca em viagens ao exterior: no ano passado turistas argentinos gastaram US$ 5 bilhões fora do país, o que indica um aumento de 165% nos gastos realizados em 1990. Há nove anos, 2,3 milhões de argentinos vajaram ao exterior, enquanto que no ano passado, o número foi de 4,5 milhões. A média de gasto por turista argentino no exterior subiu de US$ 628 em 1990, para US$ 870 em 1998. O desembolso dos argentinos no exterior representa 1% dos gastos turísticos mundiais.
O dado é ilustrativo do inédito e crescente contraste social na Argentina: o 20% mais rico da população obtém mais de 50% da riqueza do país, enquanto que o 20% mais pobre dos argentinos somente fica com 4%.

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