O cuidado com áreas verdes, nascentes e fundos de vale deve ser encarado não apenas como uma obrigação ambiental, mas também como uma estratégia de desenvolvimento urbano e econômico de Londrina. Essa foi uma das principais conclusões apresentadas nesta quinta-feira (24) durante o 10º Fórum em Debate, promovido pelo Fórum Desenvolve Londrina, que discutiu o tema “Parques e Áreas Verdes, Infraestrutura Verde e Azul de Londrina”.

Ao longo do encontro, especialistas e representantes do poder público defenderam que Londrina precisa mudar a forma como se relaciona com seu patrimônio natural. Em vez de considerar nascentes, fundos de vale e áreas de preservação como obstáculos para a expansão urbana, a proposta é incorporá-los ao planejamento da cidade e criar usos que aproximem a população desses espaços.

Presidente do Fórum Desenvolve Londrina, Angelo Pamplona ressalta que a cidade possui uma rede natural formada por mais de 80 quilômetros de fundos de vale, córregos, nascentes, lagos, matas, arborização e parques. Para ele, essa estrutura deve ser compreendida como parte da infraestrutura fundamental da cidade. “Não precisamos escolher entre preservar e desenvolver. Precisamos aprender a desenvolver preservando”, afirmou.

O prefeito de Londrina, Tiago Amaral (PSD), também destaca o potencial econômico e social dos fundos de vale. Segundo ele, essas áreas ainda são vistas, muitas vezes, como problemas por criarem barreiras à circulação entre diferentes regiões, mas podem se transformar em ativos urbanos.

Para Amaral, Londrina poderia contar com quatro ou cinco grandes parques lineares, conectando diferentes regiões com espaços para caminhada, corrida, lazer e convivência. Para ele, a utilização planejada dessas áreas também pode contribuir para que os moradores se apropriem dos espaços e passem a atuar como agentes de preservação.

Natureza como infraestrutura

Docente da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), meteorologista e especialista em Engenharia Ambiental e resiliência urbana, o professor Jorge Alberto Martins relaciona a preservação ambiental à necessidade de preparar Londrina para eventos climáticos extremos.

Entre os problemas que devem ganhar importância nas próximas décadas estão as ondas de calor e chuvas intensas. Nesse cenário, árvores, áreas permeáveis, jardins de chuva, parques e outras soluções baseadas na natureza podem ajudar a reduzir os impactos sobre a população e sobre a infraestrutura urbana.

Em sua apresentação, Martins destacou o efeito da vegetação na temperatura. Com ajuda de imagens feitas com sensores térmicos, demonstrou como áreas com sombra podem apresentar temperaturas bem mais amenas em relação a superfícies expostas ao asfalto, devido ao processo de evapotranspiração das plantas. Para o professor, a arborização precisa ser considerada também uma estratégia de proteção da população diante do aumento das temperaturas.

Na questão das chuvas, defendeu intervenções distribuídas pela cidade, como jardins de chuva, áreas de infiltração e outras estruturas capazes de reter parte da água antes que ela chegue às galerias. Segundo Martins, pequenas intervenções podem contribuir para reduzir o volume e a velocidade da água que chega aos sistemas de drenagem.

Ele defendeu planejamento de longo prazo, manutenção dos espaços públicos e fiscalização de obras e descarte irregular de resíduos. Segundo sua apresentação no fórum, preservar ou implantar estruturas verdes exige investimentos, mas os custos devem ser analisados do ponto de vista dos problemas que essas soluções podem ajudar a evitar.

Ocupar e preservar

Especialista em Engenharia de Tráfego, Planejamento de Trânsito e pesquisadora da FGV Cidades, Danaê Fernandes propôs a criação de governança de longo prazo para transformar o patrimônio ambiental de Londrina em parte efetiva do planejamento urbano.

Segundo ela, Londrina possui uma estrutura verde que pode contribuir para mobilidade, turismo e valorização dos espaços urbanos, mas ainda não utiliza plenamente esse potencial. Danaê citou os chamados “greenways”, corredores que podem conectar fundos de vale e outros espaços verdes por meio de estruturas destinadas à circulação de pedestres e ciclistas.

A pesquisadora também ressalta que decisões tomadas no presente podem produzir efeitos por décadas ou séculos. Para isso, defende maior participação social e planejamento capaz de considerações além das necessidades imediatas da cidade, que deixarão condições melhores para as próximas gerações.

A avaliação foi de que áreas naturais não devem ser mantidas isoladas da população. A criação de trilhas, espaços de convivência, equipamentos culturais e outros atrativos pode aproximar os moradores, aumentar a circulação de pessoas e criar uma relação de pertencimento com os moradores.

Patrimônio valorizado

A atribuição de valor econômico aos recursos naturais é uma forma de pensar nestes espaços como locais de investimentos para sua manutenção, e não como valor de compra e venda. Segundo Jorge Martins, técnicas já utilizadas pela economia ambiental podem ajudar a calcular o valor dos serviços prestados pelos ecossistemas.

A ideia é que uma área verde não deve ser avaliada apenas pelo custo de sua manutenção ou pelo preço do terreno onde está localizada, porque presta serviços relacionados à retenção de água, regulação da temperatura, preservação da biodiversidade e qualidade de vida.

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