Cidade do México (AE-AP) - Jorge Luis Ortega veste às pressas seu colete policial e sai às ruas. Ele passa pela pizzaria, pelo hospital e pelo instituto de beleza. Nenhum sinal de problema.
Então, ele identifica seu homem parado em frente ao teatro: Alejandro Luna. Ortega o pega pelo colarinho, mas Luna vira-se e dá um golpe no rosto de Ortega. Ele luta com Luna no chão e o arrasta para a cadeia.
"Eu encontrei cocaína com ele", diz calmamente Ortega. "Além disso, ele resistiu à prisão".
Ortega volta para as ruas na procura por mais confusão. Luna, enquanto isso, fica entediado por ficar sentado na cadeia, e sai através das barras de borracha de sua cela.
Ortega tem 10 anos, Luna, 11. E esta é a Cidade da Criança, um parque de diversões onde crianças fazem de tudo: do preparo de comida aos cuidados com doentes.
O lugar tornou-se incrivelmente popular em menos de um ano de funcionamento. Apesar de sua capacidade diária para 1.200 crianças, os ingressos geralmente têm de ser comprados com uma semana de antecedência.
O parque é também um sonho de marketing. A pizzaria não é apenas uma pizzaria, é uma Dominos. O hospital sustenta o nome Johnson & Johnson. O instituto de beleza é do Ponds Institute.
Os patrocinadores, ansiosos por conquistar a fidelidade às suas marcas na mais tenra idade, pagam 55% dos custos na cidade, oferecendo a seus controladores uma outra fonte de renda.
Os fundadores dizem que estão em negociações para expandir seus negócios para outros shopping centers de Los Angeles a Nova York, de Tóquio a Buenos Aires. No próximo ano, eles esperam ter dez desses parques em funcionamento. Para 2004, a previsão é de 50 estabelecimentos.
"Trata-se de um conceito muito exportável", diz Luis Javier Larezgoiti, diretor do parque. "As crianças brincam das mesmas coisas em todo lugar. É uma brincadeira que você não precisa ensiná-las: faz de conta".
As crianças dentro do parque parecem concordar. "Eu adoro trabalhar aqui. É muito divertido", diz Yvette Sierra, uma menina de 6 anos de Orlando, Flóriada, passando parte de suas férias como caixa do supermercado Superama do parque.
"Eu estou fazendo como se fosse de verdade e praticando para quando eu for grande", diz ela, passando o leitor de código de barras sobre um pacote e bolachas.
Sua mãe, Ivete Vignau, a observa do lado de fora, quase tão entusiasma quanto sua filha. "As crianças não percebem o que estão aprendendo", diz ela. "Elas aprendem a administrar seu tempo, seu dinheiro, tudo. E é divertido".
Eis como funciona: as crianças fazem fila na bilheteria da American Airlines nas escadarias do shopping center Santa Fé. Por 90 pesos (US$ 9,50) a criança compra a "passagem" para entrar. Elas também adquirem talões emitidos pelo banco Bital no valor de 300 "pesitos", que são aceitos apenas dentro da Cidade da Criança.
Depois de passar por "máquinas de raio X", elas devem encontrar o banco e descontar seus cheques. Se quiserem, podem abrir uma conta bancária e receber um cartão magnético para saques.
Então, começa a brincadeira. Os 6.300 metros quadrados da cidade são cheios de lojas e serviços. Por 40 pesitos, elas podem alugar uma carro da General Motors, abastecê-lo no posto Pemex e passar pelo drive-through do Burger King.
Por outros 40, eles podem embarcar na fuselagem de um verdadeiro avião da American Airlines para a vista de uma miniatura da Cidade do México, enquanto podem brincar com um jogo de simulação de lutas.
Elas podem ir ao teatro e assistir a um show, ou estar num deles, já que a maioria dos atores são crianças que ensaiam por meia hora antes do espetáculo. O teatro é uma das poucas atrações sem patrocínio, mas os executivos estão negociando com as duas principais redes de televisão mexicanas.
Por 40 pesitos na Domino, as crianças podem pegar a massa de pizza, colocar o recheio e colocá-la no forno. E alimentam-se com o fruto de seu próprio trabalho.
Assim que os pesitos acabam, as crianças vão para o trabalho, ganhando 30 pesitos por períodos de 10 a 15 minutos. Elas tomam conta de recém-nascidos, bonecas obviamente, na maternidade do hospital. Elas podem trabalhar nos caixas do supermercado ou pintar unhas no salão de beleza. E podem ser policiais.
É claro que como em todo parque de diversões a última parada é a loja do lugar, que oferece preciosidades como camisetas e bonés por 131 pesos (US$ 14) e canecas por 85 pesos (US$ 9).
Durante toda a visita, as crianças são bombardeadas com propaganda, que Larezgoiti descreve como "publicidade de qualidade em vez de publicidade de quantidade".
"Isso deixa uma marca muito profunda num tempo muito curto"
diz ele. "A meia hora que a criança brinca ficará com ela por toda a sua vida. É algo que ela nunca irá esquecer".
Veja o caso de Regina del Valle, 8 anos, que está vestindo o uniforme da maior panificadora mexicana, Marinela. Ela colocou creme e gelatina dentro de um pãozinho e o colocou dentro de uma máquina que irá cobri-lo com chocolate e que, depois de assado, irá tornar-se um dos mais populares produtos da empresa, o "gansito". "É legal porque a gente descobre como os gansitos são feitos", diz ela. "Eu sempre dei os meus para os meus irmãos, mas talvez agora eu comece a gostar deles".

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