Brasília, 08 (AE) - A estratégia do governo de liberar cerca de R$ 500 milhões para o atendimento das emendas individuais de parlamentares até o final do ano não deverá mudar a posição dos deputadas da base aliada em relação a projetos de interesse do Planalto. O atraso na liberação das emendas acabou acentuando o descontentamento dos aliados com o governo, o que dificultará a aprovação de medidas do interesse do Executivo durante a convocação extraordinária em janeiro. Os líderes dos partidos da base acreditam que o governo acabou segurando o dinheiro até o último momento como forma de dificultar a aprovação das verbas.
"O Executivo não pense que esse dinheiro no final do ano chegará aos deputados como um presente Papai Noel", disparou o líder do PMDB na Câmara, deputado Geddel Vieira Lima (BA). "Isso não é favor nenhum e sim uma obrigação", avaliou Geddel, sem esconder a insatisfação com o atraso nas emendas.
A mesma opinião é compartilhada pelo líder do PFL na Câmara, deputado Inocêncio Oliveira (PE). "A liberação de emendas já deveria ter sido feita ao longo do ano", avisou o pefelista, lembrando que muitos parlamentares se afirmam em suas bases com essas pequenas obras. É por meio da construção de quadras esportivas, obras de saneamento e de postos de saúde é que o deputado consegue mostrar prestígio em sua base eleitoral.
O líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM), reconhece que houve atraso na liberação das emendas, mas acredita que a insatisfação da base pode ser resolvida. "É preciso compreender as razões do governo", defendeu Virgílio. "Afinal, esse ano corríamos o risco de atravessar uma tragédia financeira e por isso era preciso uma austeridade fiscal", justificou o tucano.
Ele lembra que os R$ 500 milhões que começaram a ser liberados esta semana serão usados para atender emendas de até R$ 1,5 milhão de parlamentares que se reelegeram no ano passado. Para agilizar a tramitação, Virgílio está conversando com os ministros Martus Tavares, do Orçamento, Pedro Parente, da Casa Civil, e Aloysio Nunes Ferreira, da Secretaria Geral da Presidência.
Mas apesar do empenho do líder do governo, a desconfiança é grande entre os parlamentares da base. "O Planalto ainda vai nos criar sérias dificuldades", aposta o segundo vice-presidente da Câmara e porta-voz do baixo clero, deputado Severino Cavalcanti (PPB-PE). "Eles deixaram para soltar na última hora porque sabem que a burocracia é enorme", explicou Cavalcanti.
Segundo ele, como é preciso uma grande quantidade de documentos para liberar as emendas, os deputados correm o risco de passar por "mentirosos" em suas bases eleitorais. "Prometemos as obras, mas elas não serão feitas", disse. "Em nossos Estados vamos ser chamados de deputado-Pinóquio", completou Cavalcanti, numa referência ao personagem da literatura infantil.
Para o líder Geddel Vieira Lima, o governo precisa ter mais responsabilidade com os seus compromissos. "Quando o dinheiro sair, não haverá mais tempo de fazer nada", alertou. "Isso é um desrespeito." Segundo ele, a relação da base com o governo não irá mudar por causa dessas liberações no prazo final. "Não dá para melhorar a disposição dos deputados com o Planalto; a relação está ruim porque o governo está mal", justificou.
Já Inocêncio Oliveira sugere que no próximo ano o governo libere mensalmente 10% do total de emendas parlamentares para não sofrer desgastes com a base. Ele discorda da intenção do líder Arthur Virgílio de vincular as emendas individuais a partir de 2000 com projetos estruturais ligados ao orçamento e ao Plano Plurianual. O tucano quer com isso otimizar os gastos do governo. "Mas o que representa uma emenda de R$ 100 mil para investimentos de R$ 100 milhões?", argumentou Inocêncio.

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