paris, 22 (AE) - Oito dias atrás a França era violentamente criticada pelos jornais ingleses, odiada pelos camponeses britânicos e censurada pelas autoridades européias de Bruxelas. Seu pecado? Ela se recusava a suspender o boicote ao boi britânico, opondo-se assim a Londres, mas também à Europa de Bruxelas, para a qual os ingleses haviam erradicado o perigo da "vaca louca". Ora, hoje tudo mudou: não apenas os ingleses estão com o rabo entre as pernas, mas Paris aparece quase como um modelo para os outros países europeus (a começar pelos alemães, que também temem a carne inglesa).
Qual o motivo dessa espantosa reviravolta? Infelizmente, parece que um novo caso foi detectado na França de uma mulher acometida pela doença da vaca louca (Crentzfeld-Jakob ou ainda encefalopatia espongiforme bovina). Esse fato lançou portanto uma dúvida na teoria segundo a qual o mal não podia atravessar a barreira das espécies, ou seja, passar dos bovinos ao homem. A morte dessa mulher francesa soma-se aos 48 casos fatais registrados na Inglaterra.
No entanto, nunca se havia conseguido provar que a forma humana de Crentzfeld-Jakob havia sido transmitida pela carne de vaca inglesa.
Alguns pensavam que era a mesma doença, mas específica aos homens e que não se explicava pela ingestão do animal doente.
Ora, hoje a ciência se manifesta. O professor Liam Donaldson, conselheiro médico junto ao governo britânico confessa que o vínculo entre as duas formas de doença foi constatado. E, na revista médica americana de maior prestígio, o prêmio Nobel americano Stanley Prusiner, associado a dois especialistas no assunto: Robert Will e James Ironside, são taxativos: sim, dizem eles, é certo o vínculo entre a morte de 200.00 bovinos na Grã-Bretanha e os 48 humanos mortos da doença na Grã-Bretanha.
Consequentemente, o quadro mudou: a Comissão de Bruxelas, prestes a mover uma ação judicial contra a França, que violou uma decisão européia recusando-se a suspender o boicote, mostra-se hesitante. O governo inglês que vociferava contra a França, modera suas reclamações.
Duas observações rápidas: o primeiro-ministro francês Jospin estaria a par dos acontecimentos quando se recusou, mesmo correndo o risco de provocar uma tempestade, a suspender o boicote? Embora em Paris não se comente isso, muitos pensam que as conclusões dos médicos americanos e ingleses já eram conhecidas naquele momento.
Tony Blair estava furioso com Jospin, pois a opinião inglesa esgoelava contra a França, acusada mais uma vez de não cumprir acordos, de ser trapaceira, mentirosa e egoísta. Hoje, Tony Blair está bastante constrangido.
Mas, além desses efeitos políticos graves, existe pior: se realmente a doença pode passar do boi para o homem, e considerando que a incubação da doença é estimada pelos cientistas em quinze, e talvez vinte anos, o futuro pode ser preocupante. Principalmente, na Inglaterra. Foi o que disse o professor Liam Donaldson, conselheiro de saúde de Tony Blair.
Sua frase é terrível: "É triste, mas não saberemos antes de vários anos se a epidemia vai atingir centenas de pessoas ou centenas de milhares".
Em outras palavras, trata-se de uma catástrofe sanitária de grande amplitude, que ameaça talvez, a médio prazo, a Grã-Bretanha.

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