São Paulo, 26 (AE) - Um dia depois de ser torturado por adolescentes infratores armados com paus e estiletes, o monitor da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem) Roberto Brasil, de 48 anos, quase foi linchado hoje por um grupo de 20 parentes de internos, revoltados com o boato de que os adolescentes estariam sendo obrigados a beber urina.
Brasil foi refém dos menores por 11 horas, desde o início da rebelião na Febem que deixou quatro mortos. Eles o enrolaram num cobertor encharcado com álcool e ameaçaram incendiá-lo. "Alguns menores que me conheciam ajudaram a convencer os mais exaltados a não me matar". Libertado, foi para o hospital, reencontrou a mulher e os dois filhos e, hoje, voltou ao Complexo Imigrantes da Febem para tentar achar seus documentos, o telefone celular e o bip, todos roubados pelos adolescentes.
Eram 16h25 quando a revolta dos parentes voltou-se contra Brasil, que estava sendo entrevistado em frente da entrada principal do complexo. Pouco antes, o perueiro M.F., de 37 anos, saíra, revoltado, de lá. "Nossos filhos estão sendo intimidados pelos PMs", disse. "Não podem levantar a cabeça para conversar com a gente, ficam sentados no chão e nós em cadeiras".
Foi uma frase, contudo, que provocou a revolta. "Estão obrigando nossos filhos a beber urina", disse, chorando. Ao ouvir a informação, um grupo de 20 mães, namoradas, irmãos e irmãs de internos partiu para cima do monitor aos gritos de "lincha, lincha". Uma moça chegou a apanhar uma pedra, mas desistiu de atirá-la. Com ferimentos na cabeça e andando com dificuldade, Brasil fugiu da multidão que gritava "Cachorro, vai morrer; pega, lincha". Cercado, escondeu-se numa lanchonete.
Quando o grupo tentava invadi-la, chegaram os PMs do Comando de Policiamento de Choque (CPChoq), que o levaram para a Febem sob ofensas e vaias. O filho do perueiro está internado por roubo de motos. Em represália à tentativa de linchamento, o comando da PM suspendeu as visitas na Febem. Informou também que os soldados do CPChoq não têm contato com os menores nem acesso às dependências internas da instituição. Negou ainda que as crianças estivessem sendo obrigadas a beber urina. A PM informou que os menores estão sendo acompanhados pelo Conselho Tutelar do Menor e pela Pastoral do Menor. Relato - Antes de escapar do linchamento, Brasil estava relatando o que sofreu nas 11 horas em que foi mantido refém. Durante a rebelião, os menores afirmavam a todo momento que iam matá-lo. "Levei pauladas e fui torturado". Ele recebeu hoje dispensa médica do trabalho por 15 dias. Está traumatizado e acusa os vigilantes contratados pela Febem de terem fechado por fora a porta de ferro do muro externo da Unidade de Acolhimento Provisório quando a rebelião começou, deixando os monitores presos com os menores rebelados. "Se não fosse isso, não haveria reféns". Os vigilantes fazem a segurança da parte externa da unidade.
Outro refém que ficou traumatizado foi o instrutor educacional José Henrique. Os infratores esfregaram o sangue de um dos menores mortos em seu rosto. "Vi meus colegas serem furados com facas". Ele teve o braço quebrado. Seus dois filhos pediram que ele largasse o emprego. "Não posso, tenho de sustentar minha família".

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