Um dinossauro carnívoro, antepassado do temido Tyrannossaurus rex (T-rex), o vilão do filme ‘‘Parque dos Dinossauros’’, habitou o nordeste brasileiro há 110 milhões de anos. A descoberta foi possível graças a um fóssil encontrado na Bacia do Araripe, no Ceará e é a primeira prova de que ‘‘parentes’’ do T-rex viveram na América do Sul. Os ossos, encrustrados num nódulo calcáreo, guardavam ainda uma surpresa para os pesquisadores do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro: estavam cobertos por ‘‘tecido mole’’, formado por fibras musculares, vasos sanguíneos e até o couro do animal.
A partir do estudo desse tecido, nunca antes encontrado em tão bom estado de conservação, uma equipe de paleontólogos, geólogos e até um artista plástico conseguiu, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio (Faperj), reconstituir o dinossauro num modelo. A reprodução foi apresentada ontem no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, e entrará em exposição no dia 4 de agosto.
‘‘No laboratório, costumamos brincar que Deus é brasileiro’’, conta o geólogo Alexander Kellner, que chefiou a expedição ao Ceará, em que o fóssil foi encontrado. Uma parte desse tecido foi armazenado para ser estudado em ‘‘100 anos’’, segundo Kellner. Ele acredita que no futuro haverá tecnologia para aprofundar ainda mais as pesquisas. ‘‘Há a possibilidade de descobrir-se até célula sanguínea’’, aposta. O dinossauro brasileiro foi batizado de Santanaraptor placidus. Santana, por causa da região do Ceará em que foi descoberto; raptor, por ele ser predador; e placidus, em homenagem ao professor Plácido Cidade Nuvens, da Universidade do Cariri. ‘‘Ele evoluiu, milhões de anos depois, e de alguma forma migrou para a América do Norte, onde havia o Tyrannossaurus rex’’, diz Kellner.
Os ossos encontrados - parte da bacia, da cauda e as pernas completas - pertenceram a um filhote, que media 60 centímetros e pesava no máximo 30 quilos. Os pesquisadores acreditam que ele devia estar rodeando uma lagoa, se desequilibrou e caiu. Uma enxurrada levou o corpo para o fundo, onde não havia oxigênio, e as camadas de rocha foram se depositando, até envolver o pequeno dinossauro numa espécie de cofre.
Os ossos ocos indicam que o dinossauro era ágil, do tipo corredor, que emboscava a presa.Como ele não foi um animal grande - na idade adulta alcançaria 2,5 metros no máximo enquanto outras espécies chegavam a 15 metros - deduz-se que ele comesse animais de pequeno porte.
O Santanaraptor placidus foi descoberto em 1991, mas seu esqueleto não pôde ser reconstruído por falta de verba. Somente em 1996 o projeto foi retomado. Durante cinco anos, o raro ‘‘tecido mole’’ ficou armazenado numa gaveta do museu.
‘‘Quando vimos o ‘tecido mole’, nos assustamos e não soubemos o que fazer’’, conta Kellner. Nem os grandes centros americanos souberam como estudar o tecido. Kellner e sua equipe tiveram de desenvolver a tecnologia apropriada e, recentemente, um pedaço do tecido foi enviado para a Universidade de Montana, nos Estados Unidos. Há quatro meses, com o patrocínio da Faperj, o esqueleto e o modelo vivo puderam ser confeccionados. Gislaine (apelido dado ao modelo vivo pelos cientistas ) e A.L. (o esqueleto) serão exibidos por um mês no Museu Nacional.

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