Com o início de uma colaboração focada no firmamento de um acordo que poderá efetivar a descoberta da vacina contra o novo coronavírus, Brasil e Rússia vivem um dos momentos mais importantes em quase dois séculos de sua relação diplomática e cujo auge havia sido registrado em 2002. Foi neste ano que as relações diplomáticas entre os dois países foram alçadas ao patamar de “Parceria Estratégica”, o que foi seguido de um período de estreitamento de interesses tanto em âmbito bilateral, quanto em foros como Nações Unidas, Brics (grupo formado, também, por Índia, China e África do Sul) e G20.

Para o professor de Direito Internacional e Filosofia da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) e pós-doutor em Direito Internacional, Eduardo Saldanha, a pandemia não provocará uma mudança radical, especialmente em curto prazo, nos arranjos financeiro e institucional destas nações. A avaliação leva em conta o fato de que a “vocação” comercial destes países permanecerá a mesma, diferentemente do que defendiam diversas narrativas “pós-apocalípticas” encampadas no argumento de que a forte crise econômica gerada pela pandemia do novo coronavírus mudaria o mundo da "noite para o dia".

Em conversa com a FOLHA, Saldanha lembrou da aproximação que já existe entre a Rússia e o Brasil em setores importantes, como gás e petróleo, e, principalmente, que os interesses dos dois países continuarão os mesmos após a descoberta da vacina. “Não podemos deixar de considerar que as coisas vão voltar ao normal, porque não se joga no lixo anos e anos de relações diplomáticas simplesmente devido a uma crise global que o mundo está passando. Mas os países não mudam as suas vocações em três, quatro anos”, avaliou.

Agora, a aproximação é de natureza “acadêmica” e deverá fazer com que os paranaenses escutem com ainda mais frequência o nome do país europeu pouco conhecido por sua política de transparência. O que se sabe, por enquanto, é que o governo do Paraná deverá compor uma força-tarefa com servidores de diversas instituições. Segundo a Agência Brasil, os termos estarão mais claros em um decreto a ser publicado nesta segunda-feira (17) . Somente a partir deste momento, o estado passará a receber as informações sobre os resultados das pesquisas russas e um protocolo poderá ser elaborado e submetido à Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) do Ministério da Saúde e à Anvisa (Agencia Nacional de Vigilância Sanitária).

“Há uma questão política também, pois é um governo de estado lidando com um ente federal, então, politicamente, deve haver uma vontade para fazer isso no ‘afogadilho’. Politicamente seria uma grande vitória, mas não podemos deixar de analisar que temos um instituto de pesquisa que estará na vanguarda científica em todo o mundo”, ponderou o professor.

Convênio

Já quando questionado sobre o que acha que deverá ocorrer com os direitos econômicos, a propriedade intelectual da descoberta da “cura” para a Covid-19, Saldanha lembrou que tudo ainda deverá ser construído em um grande convênio. “Por enquanto, está em termos confidenciais, mas deve haver um acordo de patente conjunta deste produto, ou no Brasil ou na Rússia, pois isso certamente vai gerar royalties para o inventor”, lembrou.

Se aprovado o protocolo pelos órgãos reguladores brasileiros, a intenção é que os testes de fase 3 sejam feitos em voluntários paranaenses, o que dependerá da efetivação de um acordo de transferência de tecnologia da Rússia para que o Tecpar (Instituto de Tecnologia do Paraná) dê início à fabricação. A previsão feita pelo presidente do Instituto, Jorge Callado, é de que a planta da vacina custe R$ 80 milhões ao estado neste momento.

No entanto, na tentativa de prever o futuro, outra pergunta sobre a vacina sempre vem à tona: quanto custará para estados, municípios e cidadãos? A resposta dependerá de uma equação que envolve muitos atores - públicos e privados – em uma corrida que pode ser comparada com a chegada do homem na Lua, não à toa o motivo que faz a vacina russa ser chamada de Sputnik V.

““Imagina-se que o Governo do Paraná não tenha condições de produzir em larga escala, então o que se faz, celebra-se um acordo com a indústria farmacêutica para que a indústria produza e distribua este medicamento cobrando royalties específicos para a venda da vacina, como acontece nas universidades”, explicou.

Vacina da USP

Enquanto a Universidade de Oxford e o Laboratório chinês Sinovac também estão avançadas nesta corrida, um grupo de pesquisa da Faculdade de Medicina e Ciências Farmacêuticas da USP (Universidade de São Paulo) anda animado com o desenvolvimento de uma vacina própria em formato de spray. E, assim como apontam os paranaenses, a “linha de chegada” deverá ser somente o segundo trimestre do ano que vem, tempo estimado para se cumprir todos os protocolos de testagem.

“A Rússia que é hoje um país cuja transparência não é bem uma característica do estado, é bem possível que tenha se desenvolvido essa vacina a toque de caixa, mas não podemos negar que tenha uma efetividade, como ocorreu na Corrida Espacial”, avaliou.

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