Paranaenses migram para Portugal atrás de dinheiro
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sábado, 08 de setembro de 2001
Roldão Arruda 
Uma nova onda migratória do Brasil para o exterior está chamando a atenção dos especialistas em demografia. O alvo mais uma vez é Portugal, país que já havia ficado em evidência nos anos 80, quando recebeu levas de brasileiros, boa parte deles com curso superior e provenientes de São Paulo e Rio. A diferença agora é que a maioria dos novos migrantes é formada por gente menos instruída, que parte principalmente da região norte do Paraná, de cidades como Londrina e Maringá. No conjunto, os paranaenses estão ultrapassando os mineiros de Governador Valadares, de onde provinha o maior contigente de viajantes.
Outra diferença é que os migrantes agora são mais jovens, na faixa de 19 a 25 anos. Os homens vão trabalhar principalmente na construção civil. As mulheres arranjam emprego como doméstica, em restaurantes e bares. De maneira quase invariável, esses brasileiros contam que deixam o País por causa dos baixos salários ou por falta de oportunidades de trabalho. Sonham quase sempre com as mesmas coisas: querem acumular dinheiro para comprar uma casa e para abrir seu próprio negócio.
De acordo com informações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, o número de brasileiros legalizados em Portugal quase dobrou em menos de um ano. A relações públicas do serviço, Marília Neres, disse que até o fim do ano passado havia 20.877 brasileiros vivendo legalmente no país. Mas de janeiro a agosto deste ano já foram concedidas outras 17.873 autorizações de residência. ''Estamos perto de 39 mil'', afirmou a funcionária.
Esses números oficiais, porém, estão longe de refletir a realidade, segundo a socióloga Lúcia Bogus, pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), dedicada ao estudo da migração para a Europa. Ela acredita que o número de brasileiros que vivem clandestinamente em Portugal cresce numa velocidade maior que a de legalizados. Pelas suas estimativas, já passa de 60 mil o total de migrantes.
A socióloga acredita que as autoridades estão facilitando a permanência de brasileiros porque Portugal necessita de mão-de-obra. Ela descreve a situação da seguinte maneira: ''Com investimentos da União Européia, Portugal vive um momento de expansão econômica. Há um boom na construção civil. Mas falta mão-de-obra. Boa parte dos jovens portugueses foram trabalhar em países mais ricos, como a Alemanha e Suíça, deixando vagos muitos postos de trabalho.''
Foi Lúcia quem observou que os migrantes estão saindo principalmente do Paraná. O fluxo migratório pode ficar mais intenso. Frequentemente as pessoas que se instalam no país começam a chamar seus parentes. Em Londrina há famílias que já despacharam até dez integrantes para Portugal.
Além disso, em situações como essa, que envolvem tantos riscos, costuma-se ressaltar principalmente os casos que dão certo. Na semana passada, na comunidade religiosa mórmon de Londrina fazia sucesso a história de uma de suas integrantes, Roseli dos Santos, de 31 anos, que trabalha há um ano como empregada doméstica na casa de uma família lisboeta.
Sem gastos com aluguel e alimentação, Rose, como é conhecida, já conseguiu economizar para quitar o empréstimo com que pagou a passagem de ida. Também sobrou dinheiro para vir ao Brasil, pela Air France, passar férias e rever amigas. Prestes a conseguir um visto de residência, ela não tem prazo para voltar. ''Minha meta agora é economizar para poder comprar uma casa própria em Londrina'', diz animada.


