Seca -

Paraná vive maior crise hídrica dos últimos 20 anos

Desabastecimento já atinge vários municípios do Estado; Londrina convive com um deficit de chuva acumulado desde 2018

Lucio Flávio Cruz - Grupo Folha
Lucio Flávio Cruz - Grupo Folha

O Paraná vive a pior seca dos últimos 20 anos e isso tem obrigado a um racionamento de água em várias regiões do Estado. Em Londrina, o risco de desabastecimento ainda não é imediato, mas a cidade convive com um deficit de chuva acumulado desde 2018. 


Tibagi é afetado pela falta de chuvas mais severa, que já dura ao menos dez meses
Tibagi é afetado pela falta de chuvas mais severa, que já dura ao menos dez meses | Gustavo Carneiro
 


Desde 1997, quando o Simepar começou a monitorar as condições do tempo, não chove tão pouco no Estado. A baixa precipitação persiste já há dez meses. Levantamento do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná aponta que nove grandes cidades paranaenses de todas as regiões apresentaram índices bem abaixo da média histórica entre junho de 2019 e março de 2020.




Houve uma redução média no volume de chuva de 33% no conjunto de municípios formados por Curitiba, Ponta Grossa, Guarapuava, Maringá, Londrina, Foz do Iguaçu, Cascavel, Guaratuba e Umuarama. 


Guarapuava, na região central, é a cidade que mais sofre com a estiagem. A diminuição no volume de chuvas foi de 47,2% - 809 milímetros contra uma média histórica de 1.274 mm. Em Curitiba, a redução foi de 43,1 %, enquanto em Londrina a queda foi de 30,5% e em Maringá, de 15%.


A crítica situação hídrica do Estado fez com que o governador Ratinho Junior publicasse o decreto 4.626, no último dia 7, declarando situação de emergência hídrica de 180 dias, com o objetivo de agilizar processos e dar prioridade ao uso da água para consumo humano. 


Com a falta de chuva, Curitiba e região metropolitana e ainda cidades como Cascavel e Medianeira, no Oeste, são as que mais sofrem e já convivem com desabastecimento e rodízio no fornecimento de água.


O gerente de produção da Sanepar para Curitiba e RMC, Fábio Basso, explicou que o sistema que abastece a capital é composto por barragens e também por captação superficial em alguns rios. "O nível das nossas barragens estão muito baixos e o sistema que capta água no rio Miringuava também está comprometido. Por isso, foi necessário implantar o rodízio de abastecimento em alguns bairros", revelou. "E se o volume de chuva não se normalizar pode ser que seja necessário levar o rodízio para outras áreas, além de aumentar o período de desabastecimento". 


Em municípios do Norte do Paraná, a Sanepar tem aplicado planos contingenciais visando o abastecimento regular em 18 sistemas, onde rios ou poços estão com vazão até 80% menor do que a média histórica. Situação esta vivida por cidades como Apucarana, Jandaia do Sul, Mauá da Serra e outras do Vale do Ivaí, Rancho Alegre, Ibaiti, Siqueira Campos e Santo Antônio da Plantina, no Norte Pioneiro.


Ainda não foi necessária a implantação do rodízio de fornecimento de água, mais alguns municípios sofrem com desabastecimentos em horários de pico.


Além da estiagem, o que prejudica ainda mais o abastecimento é o aumento no consumo de água. De acordo com a Sanepar, houve um crescimento de 10% no consumo na região nos meses de março e abril, em comparação com o mesmo período do ano passado. Além do isolamento social por causa da pandemia do coronavírus, o calor e o tempo seco também contribuíram para que a população consumisse mais água. 


Londrina


Estudo do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) mostra que Londrina tem registrado volume baixo de chuva de forma seguida desde 2018 e que o ano passado teve o segundo menor acumulado de chuvas desde 1976, quando a estação meteorológica do Iapar começou a registrar as precipitações no município. 


Em 2018, choveu um total de 1.569 milímetros em Londrina, 63 mm a menos que a média histórica de 1.632. O déficit hídrico aumentou em 2019 e choveu apenas 75% do esperado para ano. Foram 1.238 milímetros acumulados de chuva. Com isso, o ano passado ficou à frente apenas de 1985, quando choveu um total de 1.153 milímetros, e foi o ano mais seco da história de Londrina desde 1976.


Nos quatro primeiros meses deste ano, a situação piorou. Entre janeiro e abril choveu somente 329 milímetros na cidade, 50% da média histórica esperada para o quadrimestre, que é de 656 mm. 


Outro ponto que chama a atenção na pesquisa é que as chuvas estão cada vez mais concentradas dentro do mês, com as precipitações intensas sendo registradas em poucos dias. "Em janeiro choveu apenas três dias, em fevereiro e abril, em apenas dois dias. Em 2018, 72% do total de chuva do ano se concentrou em quatro meses. Esta má distribuição é ruim para todos, principalmente para a agricultura", afirmou a agrometeorologista do Iapar, Heverly Morais. 


E a crise hídrica não se normalizará rapidamente no Paraná. Relatório do Simepar mostra que o volume de chuvas ficará abaixo da média normal no período que varia de três a seis meses. "O outono e o inverno são as estações mais secas do ano e isso vai se manter. Não chegamos a esta situação de um dia para o outro e a retomada para um nível normal também não será rápida", alertou Morais.


Captação no Tibagi garante abastecimento em Londrina


Apesar da longa estiagem, a situação do abastecimento em Londrina ainda não é uma preocupação como em outras regiões do Estado. O gerente industrial da Sanepar na cidade, Antônio Gil Gameiro, revela que o município tem um sistema de captação no Tibagi que o deixa em uma posição privilegiada em relação a outras localidades.


"A imagem que as pessoas veem das pedras acima da superfície em muitos pontos do rio não é a realidade encontrada na estação de captação. Lá há um barramento natural, que deixa o nível mais elevado que em outros locais", explicou. "Não temos problemas de desabastecimento neste momento e esta não é uma preocupação para nós agora".


No entanto, Gameiro ressalta que a Sanepar está monitorando diariamente os níveis dos rios, poços e minas para fazer projeções futuras quanto a um possível desabastecimento na região. "Apesar disso é importante que as pessoas façam o uso racional da água, evitem o desperdício, elimine os vazamentos e priorizem o uso da água para o asseio pessoal".

O rio Tibagi é responsável pelo fornecimento de 70% da água de Londrina e de 90% de Cambé
O rio Tibagi é responsável pelo fornecimento de 70% da água de Londrina e de 90% de Cambé | Gustavo Carneiro
 


O rio Tibagi é responsável pelo fornecimento de 70% da água de Londrina e de 90% de Cambé. O restante da água vem de poços e do ribeirão Cafezal, que apesar da estiagem, também tem uma situação confortável em termos de abastecimento. A cidade de Tamarana e os distritos rurais de Londrina são abastecidos por poços. 


 



'Cada dia o rio baixa um centímetro'


Para quem depende do rio para sobreviver, os últimos meses têm sido de dificuldades. Em Jataizinho (Região Metropolitana de Londrina), o Tibagi está pelo menos 1,5 metro abaixo do nível normal. Em vez das águas caudalosas, a imagem que impressiona no segundo maior rio em extensão do Paraná são as pedras, antes submersas, e que agora servem de passagem para quem ousa caminhar pelo leito do rio.

 "Nesses anos todos que estou aqui nunca vi tão pouca chuva como agora", diz Baiano
"Nesses anos todos que estou aqui nunca vi tão pouca chuva como agora", diz Baiano | Gustavo Carneiro
 


"Dá para caminhar mais de 300 metros daqui para cima pelo meio do rio sobre as pedras", conta o comerciante Edson Borges Dias, proprietário da Ilha do Baiano. Morador da região há mais de 40 anos, Baiano relata que a situação piorou nos últimos 30 dias e que não se lembra de uma estiagem tão longa como esta. "Não chove pra valer aqui desde setembro e nesses anos todos que estou aqui nunca vi tão pouca chuva como agora". 


Outra cena que chama a atenção é a ausência de peixes. No Tibagi, a oferta de espécies é farta: piapara, piau, piauçu, curimba. Com a seca, sobraram só os lambaris. "Com o nível do rio muito baixo, os peixes maiores não conseguem subir e chegar até aqui. Tenho 18 barcos e 18 trapiches. Está tudo parado. Sou sincero com todo mundo. Se chega alguém aqui já aviso que está ruim para pescar", afirmou Baiano. 


Apesar do aviso do experiente morador da ilha, Jair de Lima saiu de Arapongas e levou os filhos para pescar no Tibagi. Era o único cliente da ilha na segunda-feira (11). "Realmente está fraco. Não pegamos quase nada. Só uns lambaris e ainda bem pequenos. Se não voltar a chover logo ficará complicado", apontou.  


Proprietário da Ilha São Luiz, Luiz Carlos Quitério também viu o número de clientes cair nas últimas semanas. "A gente observa diariamente o volume de água diminuir. Cada dia baixa um centímetro aqui", declarou, apontando para um braço do Tibagi que margeia o seu estabelecimento. "Já encostei os barcos e fechei os trapiches porque não dá para navegar. Até cliente que paga mensalmente para pescar não está vindo porque não está pegando nada mesmo", revela.



 


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