Paraná tem tradição de quase um século de luta pela terra
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sexta-feira, 11 de junho de 1999
Por Eugênio Melloni 
Paraná, 12 (AE)- A recente escalada da violência no noroeste do Paraná, que culminou com uma gigantesca intervenção policial na região no mês passado, é apenas mais um capítulo em um histórico de confrontos sangrentos entre colonos, posseiros e sem-terra, de um lado, e fazendeiros, governos estaduais e federal e empresas, de outro. "O Paraná tem uma tradição de quase um século de luta pela terra", analisa Bernardo Mançano Fernandes, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Presidente Prudente (SP), que está escrevendo um livro e defendendo uma teses sobre a história do Movimento dos Sem-Terra (MST).
Na trajetória do movimento, o Paraná é um capítulo especial. O Estado é um dos berços do MST e um dos locais onde mais se expandiu. Comporta hoje o maior número de assentamentos (196) da região Centro-Sul, com 13 mil famílias assentadas, diz Fernandez.
Esse destaque deve-se justamente ao histórico de lutas dos trabalhadores rurais no Estado, em que há um diferencial básico em relação à atuação do movimento em outras regiões. "No Paraná, a luta pela terra é feita por camponeses, que são muito diferentes dos bóias-frias, que integram os movimentos sociais em outras regiões", explica Fernandez. "Os camponeses são mais dispostos à luta, porque para eles ter a própria terra é um sonho que muitos herdaram dos imigrantes europeus."
O MST tem raízes em uma versão sulista da Guerra de Canudos, que sacudiu violentamente a fronteira entre o Paraná e Santa Catarina na primeira década do século: a Guerra do Contestado. Foi uma revolta de posseiros, comandada inicialmente por um beato, o "monge" João Maria, contra o exército brasileiro, polícias estaduais e capangas de fazendeiros. A revolta teve início em 1908 e durou até 1914, envolvendo cerca de 15 mil camponeses e 7 mil soldados - entre 60% e 70% do exército -, mil policiais e cerca de 300 jagunços. O número estimado de mortos oscila entre 10 mil e 20 mil. A revolta foi deflagrada, de acordo com Fernandez, quando o governo brasileiro outorgou à empresa norte-americana Brazil Railway Company a concessão para a construção de uma ferrovia ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul. A companhia tinha direito a expropriar uma faixa de 15 quilômetros de cada lado da ferrovia, com a expulsão de posseiros.
Expropriação - Nos anos 40, os camponeses do sudoeste e do norte Estado começaram a insurgir-se contra a ação de grileiros. No sudoeste, uma empresa colonizadora, a Clevelândia Industrial e Territorial, iniciou a expropriação de áreas de colonos. O governador da época, Moisés Lupião, deu apoio à empresa e passou a reprimir os rebeldes, que chegaram a tomar três cidades da região. No norte do Estado, também houve confronto armado durante a década de 50, em que o Partido Comunista Brasileiro (PCB) organizou os camponeses. Ocorreram muitas mortes nos conflitos, que duraram até os anos 60.
Na década de 70, a construção da usina de Itaipu desalojou muitos camponeses. Com o apoio da Igreja, surgiu em 1981 o Movimento dos Agricultores Sem-Terra do Oeste do Paraná (Mastro), iniciativa copiada em outras regiões, com a criação do Master, no sudoeste, do Masten, no norte, e do Mastrel, no litoral do Paraná. Esses movimentos foram os embriões do MST.


