Londrina - A Constituição de 1988 criou o Estado do Amapá. O atual senador José Sarney presidia o País durante aquele período de redemocratização e concluiu seu mandato em 1990, quando Fernando Collor assumiu seu posto. No mesmo ano em que deixava o Palácio do Planalto, Sarney, que viveu a vida toda no Maranhão, foi eleito senador pelo Amapá. Esse simples caso demonstra como a criação de um Estado pode servir de trampolim para aproveitadores de plantão.
No mês passado, Sarney, que continua representando o Amapá, e outros senadores aprovaram projeto que prevê a convocação de um plebiscito para que a população do Pará decida sobre a criação de duas unidades da Federação: os Estados de Tapajós e Carajás. A consulta popular será realizada em 11 de dezembro.
Caso os paraenses aprovem a criação dos dois Estados, projetos de lei ainda serão elaborados para definir os detalhes do desmembramento político do Pará. Pela proposta em análise, Tapajós ficaria na parte oeste do Pará e Carajás, no sudeste.
Pode parecer lenda, mas o Paraná já viveu situação semelhante, e não faz muito tempo. No início da década de 1990, Edi Siliprandi, líder de um movimento separatista desde a década de 1960, foi eleito deputado federal e, em 28 de novembro de 1991, apresentou o projeto de lei 141/91, que propunha a realização de um plebiscito para a criação do Estado do Iguaçu.
O que motivou a proposição e de onde veio esse ideal separatista? A professora Celma Burille estudou o caso em sua dissertação de mestrado em 2010, na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Para Celma, a resposta brota inicialmente no século XIX quando gaúchos começaram a discutir a possibilidade de separação do restante do País, com o objetivo de combater predominância política e econômica da Região Sudeste. A consequência imediata foi a deflagração da Guerra dos Farrapos. Posteriormente, a Revolução Federalista e a Guerra do Contestado também contribuíram para formação dessa identidade separatista.
Segundo a pesquisadora, o Oeste e o Sudoeste do Paraná foram colonizados predominantemente por descendentes dos gaúchos e catarinenses, que de certa forma herdaram esse pensamento.
Território Federal do Iguaçu
Em 1943, o presidente Getúlio Vargas foi decisivo para o surgimento do movimento separatista no Paraná. Preocupado com os ''vazios demográficos'' e com as fronteiras do País, ele criou cinco territórios federais de fronteiras: Amapá, Rio Branco, Guaporé, Ponta Porã e Iguaçu.
''Vargas apelou para o sentimento de brasilidade, convenceu o povo de que cada um tinha obrigação patriótica de cuidar desses espaços, numa 'Marcha para o Oeste''', comenta a professora.
Em 1945, Getúlio Vargas foi deposto. No ano seguinte, políticos paranaenses e catarinenses se mobilizaram e acabaram com o Território Federal do Iguaçu, que também abrangia uma área de Santa Catarina.
O ideal separatista tinha tudo para renascer, pois existiam obras iniciadas pelo governo federal inacabadas. Em 1962 ressurgiu o movimento através de uma Comissão Executiva Pró-Criação do Estado do Iguaçu (Codei). ''A área proposta para o Estado do Iguaçu continuava basicamente a mesma do antigo Território Federal do Iguaçu. Seu objetivo, segundo seus organizadores, seria dar uma homogeneidade social, cultural e histórica à região do futuro Estado, já que acreditavam que a região era composta majoritariamente de descendentes italianos e alemães'', explica.
Cidades como Guaíra, Toledo, e mais ao sul Foz do Iguaçu e Chapecó fariam parte do Estado, cuja capital seria Cascavel. O movimento, porém, não foi adiante porque a Constituição previa que a convocação de plebiscitos para criação de unidades federativas era responsabilidade das Assembleias Estaduais. ''E dificilmente isso ocorreria em Santa Catarina e no Paraná'', comenta Celma.
Em 1967, com a nova Constituição aprovada, o Congresso Nacional ficou encarregado da criação de novos Estados. ''Esse fato animou os líderes do movimento separatista, que cresceu e, no ano seguinte, em 21 de abril de 1968, foi criada a Sociedade para o Desenvolvimento e Emancipação do Iguaçu (Sodei), em Pato Branco, Sudoeste do Paraná.''
No entanto, com a decretação do Ato Institucional (AI-05), em 1968, quando o governo militar proibiu reuniões e manifestações populares, o movimento novamente morreu na praia. ''As ideias separatistas só voltariam com o retorno à democracia, em meados dos anos 1980 e se intensificaria no início dos anos 1990, com outros personagens e objetivos''.
Segundo ela, em 1990 interesses políticos motivaram a busca pela criação do Estado do Iguaçu, ''uma vez que a maioria das reivindicações da população daquela região já havia sido atendida ou estava sendo viabilizada pelos governos estadual e federal.''
Até março de 1993, os políticos aliados da região fizeram campanha em todo o Paraná para conseguir apoio para o projeto, que recebeu 117 votos contrários, 90 a favor e 13 abstenções em 31 de março de 1993.
''Com a derrota, os envolvidos na questão da criação do novo Estado acreditavam que muitos deputados que votaram 'não' o fizeram apenas por obrigação. Mas depois de anos de luta tidas como inglórias, não conseguindo convencer com sua proposta separatista, o movimento arrefeceu'', finaliza Celma.

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