Curitiba - A morte de uma adolescente de 15 anos em Jataizinho, na Região Metropolitana de Londrina (RML), espancada pelo namorado, de 18, na semana passada, deve engrossar uma triste estatística. No Paraná, somente entre 10 de março de 2015, quando entrou em vigor a lei 13.104, e 1º de novembro, o Ministério Público (MP) registrou 62 denúncias de feminicídio, que são os assassinatos em razão de gênero. A média é de quase oito crimes desta natureza, tentados ou consumados, a cada 30 dias, ou seja, dois por semana. A maioria é cometida por companheiros ou ex-companheiros das vítimas.
A nova legislação se aplica em duas situações: violência doméstica familiar e menosprezo ou discriminação à condição de mulher. A pena prevista varia de 12 a 30 anos, podendo ser agravada em algumas situações. Como a qualificação é recente, não é possível fazer comparações com períodos anteriores.
Para a promotora Mariana Seifert Bazzo, coordenadora do Núcleo de Promoção da Igualdade de Gênero (Nupige), os dados assustam. "Vejo com enorme preocupação, porque esse número é o que chegou ao MP. Há muitos casos ainda sendo investigados pela polícia e que não foram contabilizados", afirmou, citando também a subnotificação.
Na última sexta-feira, durante a reconstituição, Igor Alisson da Silva assumiu a autoria da morte da garota. Conforme as investigações, o homicídio foi cometido em uma estrada rural de Jataizinho, na noite de 26 de outubro. O Corpo de Bombeiros de Ibiporã havia registrado a ocorrência como queda de moto, considerando o depoimento do rapaz. Mas a versão foi desacreditada pelo fato de os ferimentos do corpo não serem condizentes com o relato. O casal se conhecia há pelo menos dois anos. A menina já havia denunciado Silva por agressão em duas oportunidades.

MACHISMO ENRAIZADO
"Via de regra, os autores são homens com quem a mulher tem uma relação de afeto – marido, ex-marido, namorado. Ou são outros parentes, como irmãos, pais e padrastos. O segundo inciso (da lei, que fala em menosprezo ou discriminação) é mais raro, cometido geralmente contra profissionais do sexo ou logo após um estupro", contou a promotora. Segundo ela, o problema sempre existiu, fruto de um fenômeno cultural enraizado na sociedade, o do machismo. Contudo, não era debatido com a devida seriedade.
"Até março, não havia o filtro da legislação e a estatística ficava prejudicada; falava-se em crime passional." Ela ponderou que, apesar das mudanças, para muitos homens persiste a ideia equivocada de que quem "não obedece" ou quer terminar um relacionamento "merece" o castigo. "A partir do momento em que se começa a discutir e as mulheres passam a reivindicar seus direitos com firmeza, numa luta bem fundamentada, a realidade tende a se modificar", avaliou.

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