Paraná registra sete denúncias de abusos relacionados a João de Deus
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sábado, 15 de dezembro de 2018
Vítor Ogawa<br> Reportagem Local 

Até a tarde de sexta-feira (14) o MPPR (Ministério Público do Paraná) registrou sete denúncias relacionadas ao médium João Teixeira, conhecido como João de Deus. Ele teria praticado delitos contra a dignidade sexual de mulheres em Abadiânia, no interior de Goiás. As denúncias foram encaminhadas para o Naves (Núcleo de Apoio à Vítima de Estupro), localizado em Curitiba, que oferece suporte psicológico e jurídico a mulheres maiores de 18 anos.
Desde quinta-feira o MPPR tem acolhido essas denúncias de possíveis vítimas que residem no Estado e tenham sofrido abusos pelo médium. As denúncias podem ser realizadas pelo telefone (41) 3250-4022, pelo e-mail [email protected] ou pessoalmente, no Bloco I da sede do Ministério Público (Rua Marechal Hermes, 751, 5º andar, Centro Cívico).
Os procedimentos realizados serão encaminhados para o Ministério Público de Goiás, que tem atribuição legal para apurar os fatos e instituiu uma força-tarefa para investigar o caso. O MP de Goiás recebeu 330 denúncias até o momento. A Justiça de Goiás determinou também nesta sexta-feira (14), a prisão preventiva de Teixeira. Até o fechamento desta edição, ele não havia sido localizado e a defesa do médium adiantou que ele vai se apresentar á polícia. .
O caso ganhou visibilidade depois de várias mulheres denunciarem o problema no programa conversa com Bial, da Rede Globo. As vítimas alegaram que os abusos ocorriam durante atendimentos individuais em Abadiânia (GO). Os abusos aconteciam supostamente desde a década de 1980 até outubro deste ano.
A procuradora de Justiça do Ministério Público do Paraná Rosangela Gaspari, responsável pelo Naves, foi procurada por intermédio da assessoria de imprensa, mas preferiu não se pronunciar no momento. A assessoria do MPPR informou que o caso está sob sigilo, e por esta razão nenhuma informação sobre as vítimas pode ser acessada.
Para o Ministério Público, a semelhança nos depoimentos reforçam as suspeitas contra o médium. O órgão fundamentou o pedido de prisão preventiva com dois argumentos. Para a Promotoria, em liberdade, João de Deus poderia coagir as testemunhas e, caso mantivesse os atendimentos, fazer novas vítimas.
Classificando o pedido como descabido na quinta-feira (13), o advogado de defesa de João de Deus, Alberto Zacharias Toron, em audiência com o juiz que acompanha o caso, solicitou que o médium permanecesse em liberdade. Sugeriu ainda que os atendimentos pudessem ser feitos de forma assistida - com a presença de policiais ou monitorado por câmeras.
Desde que as primeiras denúncias de abuso vieram à tona, o movimento na Casa Dom Inácio de Loyola caiu. Pelos cálculos de funcionários, o local recebeu nesta quinta-feira cerca de um terço do número costumeiro de visitantes. A estimativa é de que o médium atraia mensalmente cerca de 10 mil pessoas, das quais 40% são estrangeiras.
A cidade aguarda dividida os desdobramentos. Com 17 mil habitantes, boa parte da economia do município gira em torno das atividades de João de Deus. O prefeito da cidade, José Aparecido Alves Diniz, calcula que a casa gere direta ou indiretamente 1 300 postos de trabalho. "Não há como negar que vai ser um baque para o município", disse.
Fiéis, por sua vez, estão divididos. Apegados à fé, muitos afirmam ser necessária a distinção entre o que faz o homem e a entidade. Outros não acreditam nas denúncias. "Mas é claro que as investigações têm de ser feitas. Não devemos julgar apressadamente nem contra ou a favor", disse a paulista Elizabeth Cozza. Mesmo diante das denúncias, ela decidiu vir para Abadiânia em busca de tratamento.
Em entrevista, Luciano Miranda Meireles, coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal, disse estar impressionado com o relato das vítimas e afirmou não ter dúvida de que, uma vez formalizadas as denúncias, o caso João de Deus tem potencial para superar o do ex-médico Roger Abdelmassih, condenado por abusar sexualmente de suas pacientes.
Meireles ponderou que o número de casos é maior - pois não se restringe a uma pequena parcela de pacientes."Fora o tempo. Há relatos de abusos cometidos há 20 anos." (Com Lígia Formenti/Agência Estado)


