A estiagem que assola boa parte do país levou o Paraná a decretar situação de emergência há pouco mais de um mês. O tempo seco resultou, do início do ano até a semana passada, em 12,6 mil atendimentos de incêndios ambientais por parte do Corpo de Bombeiros em todo o estado, o que representa uma média de 43 ocorrências por dia. O total é 130% maior do que as 5,5 mil ocorrências registradas no mesmo período do ano passado.

Dos 399 municípios paranaenses, dois terços relataram ao menos uma notificação de incêndio florestal este ano. Ponta Grossa lidera o ranking, com 703 registros, seguido por Maringá (638), Curitiba (470), Paranavaí (469), Apucarana (420), Londrina (415), Umuarama (394), São José dos Pinhais (341), Campo Mourão (374) e Cascavel (306).

Já em relação às regiões atendidas por Grupamentos (GB) e Subgrupamentos Independentes (SGBI) dos Bombeiros, o 5º GB, com sede em Maringá, foi o que concentrou o maior número de ocorrências. Foram 1.897 em quase 300 dias do ano. O 3º GB, que atende a região de Londrina aparece em seguida, com 1.647 ocorrências, seguido pelo 2º GB de Ponta Grossa (1.524), 4º GB de Cascavel (1.057) e pelo 9º SGBI de Paranavaí (797).

Os números levam em conta os eventos atendidos pelo Corpo de Bombeiros, porém relatórios do próprio governo estadual apontam que o número de focos de calor são bem maiores do que o total de ocorrências que tiveram ação dos bombeiros. A rápida propagação do fogo com a vegetação seca tem sido um desafio para as equipes. No dia 26 de setembro, queimadas em diferentes regiões de Londrina desafiaram a logística do Corpo de Bombeiros.

TREINAMENTO DE BRIGADISTAS

Ainda com o decreto de situação de emergência vigente, a Defesa Civil Estadual investe no treinamento de brigadistas para fazer o combate às chamas. No início do mês, começaram as ações da primeira fase, que vai capacitar 78 brigadistas de 13 municípios do Norte e Noroeste do Estado, regiões mais atingidas pela estiagem. No total, a força-tarefa vai treinar 600 brigadistas de 100 municípios que possuem ou estão localizados no entorno de Unidades de Conservação (UCs).

“Esta é uma iniciativa ímpar que o Paraná está desenvolvendo, que vai ajudar a proteger nosso patrimônio ambiental e a vida das pessoas destas regiões”, destaca Schünig. “Estes brigadistas vão realizar o primeiro combate e dar apoio ao Corpo de Bombeiros. Cada participante vai sair do curso com o seu equipamento de proteção individual (EPI), um capacete, óculos, luva bandana e colete de identificação. Também serão fornecidas as ferramentas para cumprir essa atividade como uma mochila costal e abafador”. Pelo fato de o Corpo de Bombeiros não estar presente nos 399 municípios paranaenses, essa é uma forma agir de maneira mais rápida e ágil, o que pode ajudar a reduzir a intensidade dos danos.

As primeiras capacitações acontecem nas Coordenadorias Regionais de Proteção e Defesa Civil (Corpedec) de Umuarama, Paranavaí e Santo Antônio da Platina. Participam desta etapa funcionários indicados pelos municípios de São Jorge do Patrocínio, Alto Paraíso, Ivaté, Iporã, Jacarezinho, Quatiguá, Ribeirão Claro, Guapirama, São José da Boa Vista, Amaporã, Diamante do Norte, Terra Rica e Porto Rico.

NORTE PIONEIRO

Segundo o major Eziquel Siqueira, comandante do 7º Subgrupamento de Bombeiro Independente, com sede em Santo Antônio da Platina (Norte Pioneiro), a proximidade de plantações de cana-de-açúcar e milho de áreas verdes é um cenário recorrente nos 21 municípios atendidos pela unidade. Siqueira notou no dia a dia a escalada de casos nesses pontos.

“As projeções do Simepar indicam que o período chuvoso de outubro vai ser abaixo da média histórica, por isso estamos investindo em equipamentos e treinamento. Essa parceria diretamente com os municípios é importante e será cada ano mais necessária”, avalia.

Essa é a mesma opinião do Aguinaldo da Silva, servidor de Quatiguá que está passando pelo treinamento para se tornar brigadista. “Sempre tem alguns focos na minha cidade. Estamos vivendo com a falta de chuva. Com esse curso vou poder ajudar o meu município e até cidades vizinhas”, afirma.

Já Reginaldo Assunção é funcionário da prefeitura de Ribeirão Claro. Ele vê no treinamento uma maneira de preservar o meio ambiente. “É importante conservar as nascentes, em muitos lugares onde a água já está acabando. Essa iniciativa é muito importante para a cidade porque se todo mundo se unir podemos diminuir os incêndios florestais”, avalia.

O ALERTA CONTINUA

De acordo com um levantamento feito pelo Corpo de Bombeiros Militar do Paraná, a primeira quinzena de outubro apresentou uma redução de 57% no número de focos de incêndios florestais se comparada ao mesmo período de setembro, com uma queda de 1.121 para 481. A redução foi possível graças à chuva que chegou ao estado no mês de outubro, historicamente conhecido por ser o mais úmido.

Apesar de uma melhora no cenário, o coordenador estadual da Defesa Civil, coronel Fernando Schünig, afirma que o Paraná deve continuar em alerta até pelo menos o mês de dezembro, já que a previsão indica um novo período de estiagem e de temperaturas altas até a entrada do verão, que é a estação mais chuvosa. “A vegetação já está bem comprometida, então poucos dias de sol nos levam novamente a riscos altos de incêndios”, explica.

O cenário registrado nos últimos meses já adianta que 2024 foi um dos piores anos no que diz respeito às queimadas e incêndios, apesar de ainda não ter dados sobre a intensidade e o volume de área afetado. Segundo o coordenador, isso é fruto das mudanças climáticas e das temperaturas elevadas fora de época. As queimadas, por exemplo, apesar de serem cíclicas, começaram a ser registradas ao menos dois meses antes do previsto.

O coronel Fernando Schünig ressalta a necessidade de trabalhar preventivamente em relação às queimadas, principalmente com a conscientização da população, já que a grande maioria tem como origem a ação humana. “É um trabalho semelhante ao que nós temos com a dengue”, exemplifica, complementando que cada pessoa precisa fazer a sua parte.

RECOMENDAÇÕES

Quando as condições climáticas apontam para altos riscos de incêndios florestais, a Defesa Civil emite alertas às unidades regionais dos bombeiros, para que a corporação possa atuar de maneira mais ágil aos focos que surgirem.

“É importante que a população se sensibilize nestes momentos para evitar qualquer incêndio e para avisar os bombeiros quando avistar um foco. É preciso ficar ainda mais alerta em locais remotos, onde os incêndios podem ser de maiores proporções”, alertou o integrante da Defesa Civil, Marcos Vidal da Silva Junior.

De acordo com a porta-voz do Corpo de Bombeiros, capitã Luisiana Guimarães Cavalca, pequenas ações podem fazer a diferença e evitar grandes incêndios. “Todos devem ajudar nestes períodos. As principais recomendações são não utilizar fogo para limpeza de terreno, não queimar lixo, não soltar balões e fazer a destinação correta de material vegetal, evitando montes de folhas e galhos”, orientou.

O clima seco também causa desconforto respiratório e pode agravar condições respiratórias como asma e bronquite. Isso acontece porque o tempo seco desidrata as vias aéreas e causa irritação. Por isso, neste período é importante se hidratar com frequência.(Com informações da Agência Estadual de Notícias)

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