Curitiba - Julio Cezar de Oliveira, 20 anos, tinha apenas cinco anos quando começou a vender doces nas ruas para ajudar no sustento de seus pais e seus quatro irmãos. Aos sete anos, cansado de apanhar do pai alcóolatra, o menino foi morar nas ruas de Curitiba. Foram três anos ao relento, cometendo pequenos furtos e se drogando. Trajetórias como essa são cada vez mais comuns e o final para essas histórias geralmente são o mesmo: casas de recuperação que não ajudam em nada as crianças e os adolescentes. Porém, Oliveira provou no Seminário sobre Medidas Sócio-Educativas, promovido pelo Instituto de Ação Social do Paraná (Iasp), que é possível reverter essa situação.
Atualmente, Oliveira, que era analfabeto até os 10 anos, está cursando o primeiro ano da faculdade de letras na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná e faz estágio na própria faculdade. Sorte? Pode até ser, mas essa mudança, segundo ele, foi graças mesmo a ajuda de uma entidade que abriga meninos de rua e muita disposição para mudar. ''Quando eu tinha 10 anos uma educadora da chácara dos Meninos de Quatro Pinheiros, da Fundação Educacional Profeta Elias, me convidou para morar lá. Foi aí que comecei a estudar e a ter contato novamente com a minha família'', conta.
O coordenador da chácara, Fernando Francisco de Goes, conta que o local está funcionando há 10 anos e já atendeu cerca de 100 meninos. A média de recuperação é de 70%. Isso porque no início, a casa de recuperação, que atende apenas Curitiba e Região Metropolitana, contava com poucos voluntários e pouca verba. ''Hoje já temos muitos voluntários, alguns de outros países, inclusive. Também já estamos desenvolvendo trabalho de aproximação com as famílias e lançamos quatro livros falando de nossa metodologia e da história de muitos dos meninos'', explica. A idéia é investir em educação ao invés de punição.
Mudar o sistema de recuperação de menores que vigora hoje, já que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê medidas educativas e não punitivas para recuperar jovens infratores. Essa é opinião do secretário de Estado do Trabalho, Emprego e Promoção Social, Padre Roque Zimmermann. É justamente com o intuito de criar um sistema educativo que o secretário anunciou a construção de mais sete unidades de atendimento a menores infratores até o fim de 2004. ''Estamos apostando nas penas alternativas. Serão locais de pequeno porte, onde o objetivo será recuperar os menores e inseri-los novamente na sociedade. A estrutura física é diferente do que existe hoje e os métodos psicopedagógicos que serão aplicados também serão diferentes dos usados atualmente'', explica.
O seminário, que acontece até hoje na Capital, está debatendo políticas direcionadas aos meninos e meninas que cometeram atos infracionais e também tem como objetivo estabelecer e sistematizar novas propostas para a questão. Além de Padre Roque, participam do evento o secretário nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, a subsecretária de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, Denise Paiva, e o oficial de programas do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Mário Volpi.

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