Paraná lidera Pisa, mas Brasil mantém baixo nível de aprendizagem
Estudantes paranaenses superaram médias dos demais estados e dos países latino-americanos, mas resultado nacional avançou pouco desde 2015
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sábado, 12 de setembro de 2026
Estudantes paranaenses superaram médias dos demais estados e dos países latino-americanos, mas resultado nacional avançou pouco desde 2015

O Paraná apresentou o melhor desempenho entre os estados brasileiros no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) 2025 e superou, nas quatro áreas avaliadas, as médias de todos os países latino-americanos participantes. O Estado liderou o ranking nacional em Ciências, Leitura, Matemática e Resolução de Problemas por meio de Ferramentas Computacionais, enquanto o resultado brasileiro permaneceu praticamente estável em relação aos últimos ciclos. Os dados foram divulgados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).
Em Ciências, os estudantes paranaenses alcançaram 461,6 pontos, contra 408,5 da média brasileira. Em Leitura, foram 458 pontos, ante 408 do país. Em Matemática, o Paraná marcou 423,1 pontos, enquanto o Brasil ficou em 376,8. Já na Resolução de Problemas por meio de Ferramentas Computacionais, o Estado chegou a 467,4 pontos, diante de 405,5 da média nacional.
O Paraná também superou os melhores resultados latino-americanos. Em Ciências, o Uruguai teve a maior média da região, com 445 pontos. Em Matemática, os uruguaios chegaram a 405. Em Leitura, o Chile liderou, com 436, enquanto, na resolução de problemas computacionais, os chilenos alcançaram 466 pontos.
Vale lembrar que o Paraná não participa do Pisa como unidade independente. O Estado integra a amostra brasileira e seus resultados são calculados na mesma escala da avaliação internacional, o que permite a comparação com países.
Para o professor Reginaldo Rodrigues da Costa, professor de Pedagogia e coordenador do PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência) da PUC-Paraná e docente da rede estadual, o desempenho paranaense pode estar relacionado à familiaridade dos estudantes com o modelo de avaliação. Segundo ele, há um alinhamento entre os currículos, os instrumentos utilizados nas avaliações estaduais e nacionais e o próprio formato do Pisa.
“Acaba que se cria um hábito de que o estilo de avaliação do instrumento não seja muito diferente e o sujeito não tenha dificuldade com o instrumento, mas com o conteúdo”, afirma. Ele cita como exemplo a Prova Paraná, cujos modelos de questões, segundo ele, guardam semelhanças com avaliações influenciadas pelo Pisa.
Brasil estável, mas distante
O resultado nacional é menos positivo. O Brasil obteve 408 pontos em Leitura, 377 em Matemática e 409 em Ciências. Em relação a 2022, houve redução de dois pontos em Leitura e Matemática e aumento de seis em Ciências.
A comparação com 2015 evidencia a estabilidade. Naquele ano, o Brasil havia alcançado 407 pontos em Leitura, 377 em Matemática e 401 em Ciências. Em dez anos, portanto, houve avanço mínimo em Leitura e Matemática e uma melhora de oito pontos em Ciências.
Para Costa, a manutenção não deve ser confundida com avanço. “Dez anos de manutenção significa que a gente está parado, vamos dizer assim, no tempo, em questões educacionais, há mais de uma década”, avalia.
Já a gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, Bárbara Born, leva em consideração que a universalização do ensino no Brasil é algo recente, o que pode ajudar a compreender o motivo da estagnação. “Muitas vezes, os próprios pais não têm formação acadêmica, então nem sempre há um incentivo em casa pelos estudos”, afirma a especialista.

Apesar da estagnação recente, o Inep aponta avanços em uma perspectiva mais longa. Desde 2006, o Brasil está entre os países que mais elevaram a proficiência nas três áreas. A distância em relação à média da OCDE diminuiu de 102 para 58 pontos em Leitura, de 131 para 92 em Matemática e de 113 para 77 em Ciências.
O patamar, porém, continua baixo. A média da OCDE foi de 461 pontos em Leitura, 463 em Matemática e 482 em Ciências, contra 408, 377 e 409 do Brasil.
Segundo análise do Todos Pela Educação, entre os estudantes brasileiros mais pobres, 89% apresentam baixo desempenho em Matemática, 70% em Ciências e 67% em Leitura. O dado reforça o peso das desigualdades socioeconômicas sobre a aprendizagem.
Queda dos países ricos
A redução da diferença entre Brasil e países desenvolvidos também precisa ser analisada com cautela. Isso ocorreu não apenas pela manutenção ou pelos avanços brasileiros, mas também porque os países da OCDE tiveram queda de desempenho.
O Todos Pela Educação destaca que o Brasil permaneceu praticamente estável enquanto diversos países da OCDE e da América Latina recuaram. Em Matemática, por exemplo, o Brasil passou de 379 pontos em 2022 para 377 em 2025, enquanto a média da OCDE caiu para 463. Em Ciências, o país avançou de 403 para 409, mas continuou muito distante dos 482 pontos da OCDE.
Para Costa, a queda dos países tradicionalmente mais bem colocados pode estar relacionada a mudanças na forma de utilização das tecnologias no ensino. Ele cita a Finlândia como exemplo de país que passou a rever a utilização intensiva desses recursos.
“Talvez tenham percebido que o foco estava principalmente na dimensão instrumental e se esqueceram da dimensão cognitiva”, afirma. Na avaliação do professor, tecnologia deve funcionar como recurso pedagógico, e não substituir o professor ou ocupar o centro do processo educacional.
Costa também aponta a falta de continuidade das políticas públicas como um obstáculo à evolução brasileira. “Esses investimentos existem, mas acaba que, a cada governo, cada um que assume o comando de uma pasta acaba descontinuando processos que talvez precisariam de mais tempo para realmente surtir resultados”, afirma.
Born elenca outras hipóteses para a retração das notas de países ricos. Uma delas é que o avanço das redes sociais possa estar prejudicando o processo cognitivo dos estudantes, já que os conteúdos são rasos e podem ser trocados rapidamente, apenas rolando a tela.
Outra possibilidade, diz, é a adoção das inteligências artificiais para elaborar raciocínios que deveriam ser feitos pela própria pessoa. “O cérebro é como qualquer músculo. Se você não o treina, delegando essa tareda para as IAs, não vai ter a habilidade quando precisar dela.”
O Pisa 2025 reuniu cerca de 760 mil estudantes de 91 países e economias. No Brasil, participaram 30.140 estudantes de 1.053 escolas. A avaliação é aplicada a jovens de aproximadamente 15 anos e mede a capacidade de utilizar conhecimentos de Leitura, Matemática e Ciências em situações e problemas do cotidiano.
O resultado apresenta dois retratos distintos. O Paraná se destaca nacionalmente e supera os melhores desempenhos latino-americanos, mas o Brasil como um todo permanece com baixo nível de aprendizagem. A menor distância em relação aos países desenvolvidos é um dado positivo, mas deve ser interpretada à luz da queda de rendimento dessas nações.
Para Costa, mais importante do que observar apenas as notas é compreender o que está por trás delas. “Precisaria pegar mais as informações de como aquele dado foi obtido e não levar como simples resultado quantitativo”, afirma.


Luis Fernando Wiltemburg
Repórter de Cidades.



