Curitiba- O trabalho da polícia paranaense na busca de crianças desaparecidas pode servir de modelo para uma política nacional voltada à especialização da investigação desse tipo de crime. Cinco deputados federais membros de uma Comissão de Inquérito Parlamentar (CPI) sobre o tema visitaram, ontem, o Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride). O Paraná é o único estado do país a ter estruturada uma unidade específica para atender ocorrências desse tipo.
Segundo a presidente da CPI, deputada Bel Mesquita, do Pará, a comissão veio buscar a experiência do Paraná para criar propostas exequíveis para o resto do Brasil. ''Aqui, são poucas crianças que continuam desaparecidas, o índice é alto das que são encontradas. Enquanto 99% dos casos são solucionados pelo Sicride, no restante do país de 15% a 20% dos casos permanecem não resolvidos''. A parlamentar comparou também as motivações para esse tipo de ocorrência, afirmando que nos demais estados são muito mais comuns casos de crianças raptadas do que no Paraná.
Em 15 anos de atuação - o serviço foi criado em janeiro de 1996 pelo delegado Harry Carlos Herbet - 1.176 crianças desapareceram no Estado. No entanto, 1.166 foram reencontradas. Nos últimos 5 anos, apenas dois casos não foram solucionados. O delegado-geral da Polícia Civil, Jorge Azôr Pinto, defende que o diferencial do trabalho do Sicride é o foco em crianças de zero a 12 anos, enquanto outros estados que têm delegacias de desaparecidos tratam também de adolescentes e adultos. As motivações do sumiço são muito diferentes, de acordo com a faixa etária. No caso de crianças, 70% fugiram de casa voluntariamente e 30% envolvem algum tipo de crime, como sequestro ou homicídio. Entre os adolescentes a principal causa está ligada a drogas.
A delegada Márcia Tavares dos Santos, que já foi titular do Sicride e agora atua na Assessoria Civil da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), aponta os motivos para o alto índice de casos solucionados. ''Primeiro, temos a centralização de todas as informações do Estado. Se uma criança some no interior, ficamos sabendo imediatamente em Curitiba. Também temos a centralização dos dados de criminosos. E temos uma equipe treinada que atua somente nesse tipo de situação''. Ela afirma que um fator determinante é o início imediato das buscas.
Além dos dez casos em aberto desde a criação do serviço, outras 12 crianças desaparecidas antes de 1996 estão sendo buscadas. ''Todos continuam em investigação. Os policiais ainda fazem a busca ativa, entrando em contato com a família ou retornando ao local. Recentemente foi encontrada uma ossada, agora aguardamos o resultado do DNA''.
De acordo com a deputada Bel, depois da visita as propostas baseadas no exemplo paranaense devem ser apresentadas na Câmara Federal. O primeiro resultado prático da CPI será lançado amanhã. Gerenciado pelo Ministério da Justiça, o Cadastro Nacional de Crianças Desaparecidas unificou, pela primeira vez, os dados dos estados. ''Agora será possível saber na Bahia que a criança desapareceu no Carnaval do Rio de Janeiro''. Antes do Paraná, os cinco deputados membros da CPI estiveram em outros estados para conhecer as diversas realidades no tratamento desses casos. Segundo eles, não existem dados confiáveis sobre o desaparecimento de crianças no Brasil, com exceção do Paraná.

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