Paraná bate recorde de transplantes
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terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Adriana De Cunto e Rafael Fantin<br> Reportagem Local 
Curitiba - Desde a criação da Central Estadual de Transplantes (CET), em 1995, o Paraná nunca havia realizado tantos transplantes de órgãos como em 2015. Foram 495 órgãos transplantados em todo o Estado até novembro. Se comparado ao mesmo período de 2011, em que foram feitos 279 procedimentos, o aumento quase chega a 80%. Nesse número estão incluídos apenas os transplantes de órgãos: coração, fígado, pâncreas e rim.
O número de transplantes vem crescendo a cada ano no Paraná, com exceção de 2014, quando houve uma pequena queda. Em 2011, foram realizados 279, total que subiu para 381, em 2012, e para 417, em 2013. Somente em 2014, caiu para 384 órgãos transplantados. Segundo a CET, o Paraná conta com 85 centros transplantadores.
A diretora da CET-PR, Arlene Badock, explica que o recorde no número de órgãos transplantados se deve a uma soma de fatores, entre eles, o maior preparo dos profissionais de saúde em abrir o protocolo, equipes multidisciplinares cada vez mais atuantes e um programa de conscientização da sociedade sobre a importância da doação de órgãos.
Ela diz que os rins são os órgãos mais transplantados no Estado, seguido do fígado. Levando em consideração o período de janeiro a novembro, os transplantes de rins passaram de 176, em 2011, para 316 em 2015. Comparando os mesmos períodos, os de fígado passaram de 63 para 124 e os de coração, de 17 para 35. "Números como esses mostram que o Paraná está na direção certa para reduzir ainda mais a fila de espera por um órgão. Cerca de 2 mil paranaenses aguardam pelo gesto de amor e solidariedade que é a doação", disse o secretário estadual da Saúde, Michele Caputo Neto, por meio da Agência Estadual de Notícias (AEN).
O número de transplante poderia ser maior se as famílias de pacientes que tiveram morte encefálica não se recusassem a fazer a doação de órgãos. Segundo a AEN, até novembro de 2015, o Paraná registrou 720 mortes encefálicas, mas apenas 270 famílias autorizaram as doações. Entre a parada cardiorrespiratória ou alguma outra condição clínica que impeça a doação, o motivo mais frequente para que não seja feita a doação é a recusa da família.
Na opinião de Arlene, muitos parentes recusam a doação por não compreenderem ou não acreditarem na morte encefálica. Ela explica que quando a morte encefálica é confirmada, a família do paciente é comunicada sobre a possibilidade da doação. Uma equipe de profissionais esclarece o que isso significa, procurando passar credibilidade na explicação do diagnóstico feito de acordo com protocolos preestabelecidos. A morte encefálica é a interrupção irreversível das atividades cerebrais, comprovada por dois médicos de áreas diferentes.
Qualquer pessoa pode ser um potencial doador. Rins, parte do fígado e da medula óssea podem ser doados em vida. Mas, em geral, a doação ocorre após a morte com a autorização familiar. Para ser doador, não é preciso deixar nada por escrito, mas é necessário comunicar esse desejo à família, porque a doação só acontece com autorização de um parente próximo.
"O amor é forte como a morte", escreveu o sábio rei Salomão em suas declarações à mulher amada, imortalizadas no livro poético Cântico dos Cânticos. Em Londrina, a prova de amor da esposa foi fundamental na luta pela vida travada por Orlando Yoshida, que realizou hemodiálises por mais de dois anos por causa de uma insuficiência renal, enquanto aguardava por um órgão na fila de transplante.
"Foi muito difícil ver todo o sofrimento dele. Um dia antes da cirurgia fiquei com medo, mas decidi pela doação para ver o meu marido mais feliz. Hoje, tenho uma vida normal", frisa Júlia Yoshida, que doou um dos rins ao esposo em transplante realizado, no último mês de abril, na Santa Casa de Londrina. Apesar da coragem, a dona de casa ainda teve que aguardar cerca de um ano para confirmação da compatibilidade do órgão com o esposo. "Por causa do tipo sanguíneo, existia uma possibilidade remota, mas os exames confirmaram que a doação poderia ser realizada", recorda.
Orlando diz que tinha "pouca esperança" de receber um rim pela fila de transplante e sempre agradece a esposa pelo órgão doado. "Hoje, eu vivo bem com um dos rins dela e minha esposa também vive normalmente e cuida bem das tarefas da casa. Quem diria que a mulher que conheci há 37 anos iria salvar minha vida."


