Paraná anuncia acordo com a Rússia para produção da vacina contra Covid-19
Acordo, que já estava sendo costurado desde julho, torna possível tanto a transferência de tecnologia quanto a possibilidade de importação e distribuição das doses
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quarta-feira, 12 de agosto de 2020
Acordo, que já estava sendo costurado desde julho, torna possível tanto a transferência de tecnologia quanto a possibilidade de importação e distribuição das doses
Vitor Struck - Grupo Folha 
O governador do Paraná, Ratinho Junior, irá se reunir com representantes da Embaixada da Rússia no Brasil nesta quarta-feira (12) para firmar um acordo que representa um primeiro passo para o estado se tornar “polo na relação com a Rússia para poder produzir, vacinar, testar” a nova vacina produzida pelos russos contra a Covid-19. A afirmação é do chefe da Casa Civil do governo estadual, Guto Silva (PSD).
Entretanto, além das dúvidas que já pairavam sobre a metodologia utilizada pelos russos por parte da comunidade científica internacional, a terça-feira chegou ao fim deixando uma série de questionamentos sobre como estes trabalhos serão conduzidos pelo Tecpar (Instituto de Tecnologia do Paraná).

A reportagem também entrou em contato com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), órgão que ainda não havia recebido pedidos de autorização de protocolo para realizar pesquisas ou de registro da vacina, anunciada no início da manhã pelo presidente russo, Vladimir Putin.
De acordo com a Anvisa, os testes poderão ser realizados em território brasileiro mesmo sem a autorização do órgão. Porém, será necessário o aval de uma Comissão de Ética formada por técnicos do Ministério da Saúde, o que poderia ocorrer a "qualquer momento", confirmou a assessoria de comunicação. Por este motivo, nenhuma avaliação sobre a substância que vem sendo desenvolvida pelos russos seria feita pelo órgão.
Em nota, a Anvisa informou que desde o início da pandemia do novo coronavírus, solicitações de autorização relacionadas ao vírus Sars-CoV-2 têm prioridade em comparação com outros pedidos, e estão sendo avaliados em 72 horas. Este processo possui quatro etapas: desenvolvimento exploratório; pesquisa pré-clínica; pesquisa clínica (uso em humanos) e registro. Em seguida, a vacina continua sendo monitorada.
“A fase clínica serve para validar a relação de eficácia e segurança de um medicamento e também para validar novas indicações terapêuticas. É no momento do registro que é verificado se a vacina é fabricada e controlada dentro dos padrões de qualidade esperados pelos regulamentos técnicos e que os dados de segurança e eficácia são avaliados”, divulgou a Anvisa.
A vacina desenvolvida pelo instituto russo Gamaleya não seguiu protocolos estipulados pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Ao todo, a OMS monitora 160 pesquisas relacionadas à descoberta da imunização para a Covid-19.
Disputa de mercado
Para o infectologista Jaime Rocha, membro da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), é compreensível que no atual contexto de disputa de mercado nenhuma pesquisa tenha sido publicada pelo governo russo. "Em um contexto normal, todas as etapas de pesquisa: pré-clínico (animal) e etapas I e II já teriam sido publicados. Etapa III, se foi concluída, agora poderia ainda estar em redação e submissão para publicação", estipulou.
Entretanto, ressaltou que este ponto não deve ser alvo de preocupações. “O mais importante é que o Estado do Paraná já anunciou que não abrirá mão das etapas que comprovem segurança e eficácia antes do uso comercial em larga escala”, avaliou.
Segundo semestre de 2021
O acordo bilateral entre os dois governos já havia sido anunciado no final de julho e torna possível tanto a transferência de tecnologia para a produção da vacina, quanto a possibilidade de importação e distribuição das doses criadas pelos russos para a América Latina. Entretanto, os termos desta parceria ainda não foram explicados. Mesmo assim, o presidente do Tecpar, Jorge Callado, afirmou que a vacina deverá ser disponibilizada até o segundo semestre de 2021.
Debate na Alep
Para o deputado estadual, Michele Caputo Neto (PSDB), coordenador da Frente Parlamentar do Coronavírus na Alep (Assembleia Legislativa do Paraná), ainda é preciso avaliar com cuidado os termos do acordo com o governo russo já que a vacina está na fase 1. Ele disse ainda que os próprios gestores do Tecpar divulgaram recentemente que o instituto enfrenta dificuldades financeiras, na ordem de R$ 100 milhões em dívidas, além de falta de mão de obra para tocar as pesquisas.
“Mas com todo o respeito, vai precisar de muito dinheiro e quadro de pessoal para o Tecpar pois a atual situação desse órgão é de muitas dívidas e um passivo quase impagável” disse Caputo, que já ocupou por sete anos o cargo de secretário de Saúde do Paraná no governo Beto Richa (PSDB).
No entanto, conforme já havia sido divulgado, o governo do Paraná providenciou uma reserva orçamentária de R$ 200 milhões para a compra de vacinas, sendo metade do orçamento da Sesa (Secretaria de Estado da Saúde) e a outra metade resultado de um repasse da Assembleia Legislativa. (Colaborou Guilherme Marconi)


