Belfast (AE-AP) - Em uma noite recente no setor católico de Belfast, várias centenas de pessoas marcharam até as portas de dois vizinhos para transmitir-lhes uma ordem inequívoca: "Basta". "Não bateram neles; só os fizeram ouvir evidências gravadas de suas transações com drogas", disse Tommy Holland, um dos organizadores da iniciativa apoiada pelo Exército Republicano Irlandês (IRA) de mobilizar vizinhos contra os "elementos antisociais".
Como fizeram outras centenas de pessoas, os inquilinos das casas visitadas nesta noite se deram conta da situação e se mudaram do lugar. Fizeram isso por temor ao castigo tradicional do IRA: a quebra de suas pernas com tiros ou pauladas. O acordo de paz para a Irlanda do Norte apresenta uma nova fórmula para que católicos e protestantes governem juntos. Mas também pleiteia uma alternativa entre a lei e a ordem - colocando em questão a brutalidade com a qual os paramilitares clandestinos tratam aos seus em suas próprias comunidades - que entra em conflito com esta era de suposta paz.
Um ano depois de acertado o acordo de paz, o IRA e a Força Voluntária do Ulster (FVU), que operam nas zonas protestantes pobres, impuseram mais de uma centena de "castigos". No pior caso do IRA, um homem acusado de golpear uma figura proeminente do grupo morreu sangrando após receber uma surra. E o pior ataque da FVU deixou a vítima com as pernas amputadas abaixo do joelho. Seu "delito" havia sido deslealdade por revelar uma aventura amorosa da esposa de um membro da FVU.
Os aliados do IRA no Partido Sinn Fein e os da FVU no Partido Unionista Progressista querem atenuar o custo político desses ataques. Mas nem um nem o outro estão dispostos a depender da justiça tradicional: a polícia, os tribunais e as prisões de maioria protestante. Ambos os partidos dizem que o melhor é respaldar os novos programas vicinais destinados a reduzir - não eliminar - os ataques punitivos. Esses programas, que operam sob o que é chamado de "justiça retributiva comunitária", misturam a mediação entre as vítimas e os acusados, assim como painéis que aprovam "sentenças" condicionais. No lado do Sinn Fein, a fórmula permite uma ação mais agressiva, como a de protestar na frente das casas dos indivíduos acusados e proibir-lhes de comprar no comércio da vizinhança.
Para seus muitos críticos, estes programas parecem destinados a garantir que os partidários do IRA e da FVU continuem sendo os centros de poder nas quais a polícia só pode entrar com a proteção de veículos blindados. "A justiça retributiva comunitária não pode ser comandada por um grupo ou um setor de opinião. Tem que ser democrática e responsável. Se não for assim
pode ser objeto de abusos como um novo instrumento de opressão", advertiu Alex Attwood, do Partido Social Democrático e Trabalhista, um grupo católico moderado. O grupo Famílias Contra a Intimidação e o Terror, que se opõe aos castigos populares, acusa o IRA e a FVU de apresentarem-se como paladinos da luta contra as drogas ao mesmo tempo que se beneficiam com o narcotráfico. Ambos grupos desmentem energicamente essa denúncia
mas a polícia concorda. "O IRA e a FVU figuram entre as maiores quadrilhas criminosas nesta sociedade", afirma Vincent McKenna, porta-voz do Famílias, que foi membro do IRA. "Eles acusam a outros de comportamento antisocial, quando ambos assassinaram milhares de pessoas e explodiram metade de Belfast. A idéia de que eles ou seus partidários podem julgar a conduta de outros seria risível se não fosse tão perversa". Apesar de Holland, o organizador vicinal do IRA, não ter estado preso pelas atividades do exército separatista, outros companheiros seus estiveram. Holland disse que cerca de 15 vizinhos receberam treinamento para mediar vítimas e acusados, a fim de chegarem a um acordo sobre um castigo adequado.

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